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27 de fevereiro de 2021

Bala na nuca

O homem em quem ninguém confiava se aproximou da mesa com passo decidido e cumprimentou um a um os convidados para o jantar. A todos ele conhecia. Chegou por trás de cada cadeira e tocou de leve os ombros de quem estava sentado. Com alguns trocou palavras sussurradas no ouvido, em outros deu apenas um tapinha amigável e um sorriso. Chacoalhou os cabelos cheios de óleo de uns, falou “e aí?” para outros.

Quando chegou até onde eu estava, o homem que não era digno de confiança colocou as duas mãos sobre meus ombros e se inclinou para me dar um silencioso beijo no rosto. Então eu soube, de imediato, que a bala na nuca, que havia dias procurava o alvo, acabara de encontrá-lo.

O homem que não merecia confiança tem uma sina. Ele quis negá-la, não conseguiu. Eu também tenho a minha, também tentei negá-la, igualmente não consegui. Caberá a nós, a ele e a mim, dar verdade à história que será escrita daqui a muitos séculos. Foi o que fizemos, o homem indigno de confiança e eu, no Getsêmani, poucas horas depois Ele me apontou com o dedo, eu não reagi. Mais tarde, para cumprir o que tinha de ser e não desperdiçar a ocasião, aceitei os adereços com que me presentearam: a pele lanhada e exangue, a coroa, os cravos, a cruz. A bala na nuca veio em seguida e tudo se consumou.

 




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