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23 de março de 2016

Banheiro ocupado

banheiroPercebo que ela chora no banheiro, com a porta fechada. Escuto os soluços e sinto alguma pena. Quando ela finalmente sair, muitas e muitas horas depois, eu verei seus olhos vermelhos, o rosto lavado e o olhar baixo. Ela não dirá palavra, sei que não. Pisará o chão com delicadeza e pés descalços, caminhará com cuidado pela sala e irá até a outra ponta do sofá. Vai se sentar em silêncio. O nariz vai escorrer e ela vai limpá-lo com o dorso da mão esquerda. Vai reter nos olhos as novas lágrimas e não deixará nenhuma delas deslizar face abaixo. E vai esperar imóvel que um dos dois comece a falar.

Enquanto ela chora, eu continuo lendo o jornal – viro os cadernos de Esportes, Política, Economia, Variedades, Obituário – onde é que está? Hoje deviam ter publicado que nosso caso de amor terminou, que não haverá volta, que nenhum dos dois quer continuar ao lado do outro, que o amor um dia se desfaz e vai parar na vala comum dos sentimentos indesejados, que uma paixão um dia vibrante vira um oi dado às pressas, vira um convívio angustiante, vira poeira, vira cinza, vira coisa nenhuma, vira nada. E que, quando isso acontece, pode ser a coisa mais triste do mundo, pode doer e pode fazer uma mulher chorar no banheiro com a porta fechada e um homem, quase indiferente, quase cínico, quase insensível, ler o jornal sentado no sofá da sala. Mas nenhuma notícia havia saído no diário, nem mesmo uma nota de rodapé.

Fecho o jornal e olho a porta atrás da qual uma mulher chora. Esse chororô não vai acabar tão cedo, penso. Me levanto e vou ao outro. Eu sempre disse a ela que era uma boa ideia comprar uma casa com dois banheiros.

 




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