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26 de agosto de 2020

Basta!

Pensam que são felizes os seres normais,

os que não tiveram uma mãe louca,

um pai bêbado,

um filho delinquente,

um irmão comunista,

uma casa em nenhum lugar,

uma doença desconhecida,

que não foram chamuscados por um amor incendiário,

que adotaram dezessete tipos de sorriso

e doze modalidades de olhares piedosos,

os colecionadores de sapatos,

os satisfeitos, os lindos,

os “por gentileza”,

os que ganham sempre,

os flautistas e sua procissão de ratos,

os vendedores e os compradores de futilidades,

os homens vestidos em traje “esporte fino”,

as mulheres com nome e corpo de fruta,

os delicados, os sensatos, os amáveis, os doces,

os cultuadores de esterco.

 

Pensam.

Eu declaro que não são,

porque opacos,

faltam-lhes artérias, pulso,

elegância,

um dente que dói, uma mancha roxa,

alguma sujidade,

a lágrima que purifica os olhos,

o sangue que incha as veias.

 

Que se celebre a volta dos que tingem a paisagem,

os que inventam ilusões, sinfonias, esculturas,

as palavras que constrangem e as que constroem,

os artistas,

os que cultivam espantos para uso diário,

os mais loucos que as mães,

os mais bêbados que os pais,

os mais delinquentes que os filhos

e os adoradores de toda beleza.

O mundo está sedento de muito mais

do que o estrume que se nos apresenta.

 

Que os outros — aqueles —

e todos os que sejam como eles

— os radicais do pouco, do mesquinho, do menos —

garantam o seu lugar no inferno,

e basta!

 




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