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29 de maio de 2019

Beleza

Levantou-se e se olhou no espelho: velha, enrugada e cansada. Agarrou a bengala e aos tropeções chegou ao lavabo. Com a mão trêmula, tirou do armarinho sob a pia a caixa de pinturas e os pincéis. Começa a se desenhar. Pinta-se uns belos olhos com contornos expressivos, uma boca carnuda, uma pele de seda com os poros devidamente fechados. A cabeleira passa a ser ruiva, com ondas que vão até a metade das costas. Fixa os olhos no corpo e descreve curvas, barriga achatada, ombros eretos. Olha seu reflexo e discorda, mais uma vez, de quem diz que envelhecer é afinar o olhar. Não é, sussurra para si. Eu quero desafinar. Põe um vestido vaporoso, com estampa de flores. Apaga a bengala, as raízes brancas dos cabelos, as olheiras, o tremor das mãos. Apaga a velhice, a marcha do tempo. Apaga o tempo.

Satisfeita, vai até o terraço e mostra a nova cara ao dia. Prepara-se para sair, cheia de esperança de que, nos minutos que precisa para descer as escadas até a rua, o mundo também tenha se embelezado.

 




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