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12 de junho de 2020

Belisário Júnior

Belisário Júnior olha os olhos de seu pai com devoção. É de manhã, os dois tomam café. O pai lê o jornal, muito concentrado. Veste seu impecável uniforme de policial. Dali a instantes ele estará no trabalho, cuidando da ordem da cidade e da segurança das pessoas. Belisário Júnior sonha ser como ele quando crescer. A mãe, num canto da cozinha, olha em silêncio para os dois. O menino sorri enquanto admira o pai, mas ele não percebe, distraído com a leitura. Belisário Júnior deixa cair seu trenzinho de propósito, como forma de atrair a atenção do pai, que pega e devolve o brinquedo ao filho sem olhá-lo. Minutos depois o pai toma o último gole de café, pega Belisário Júnior no colo, dá-lhe um beijo na testa e sai para o trabalho.

Belisário Júnior olha os olhos de seu pai com respeito. Como sempre faz, o pai toma o café da manhã lendo o jornal, já vestido com seu uniforme limpo e brilhante. O menino quer lhe contar sobre o que está aprendendo na escola, mas desiste diante da concentração do pai na leitura. A mãe, encostada na pia da cozinha, pede ao filho, com um gesto tímido, que não o interrompa. Depois de mexer sua caneca de café com leite, Belisário Júnior, por descuido, derruba a colherzinha no chão. Seu pai a recolhe e a devolve à mesa, sem tirar os olhos do jornal. Instantes depois os dois estão prontos, o pai, para o trabalho, o menino, para a escola. Saem juntos.

Belisário Júnior olha os olhos de seu pai com medo. Ele toma café e lê o jornal, já uniformizado e pronto para trabalhar. O filho adolescente quer mas tem receio de lhe perguntar algo, o pai parece não querer conversar. A mãe lava a louça na cozinha, em silêncio e de costas para os dois. Belisário Júnior olha para ela com ar preocupado. Enquanto arruma seus cadernos na mochila, o jovem deixa cair seu estojo de canetas no chão. O pai se abaixa e o pega, olha para o filho com raiva distraída e se prepara para sair. Belisário Júnior o segue em silêncio.

Belisário Júnior olha os olhos de seu pai com horror. Ele está com o rosto enfiado no jornal enquanto toma café, já vestido para o trabalho. A mulher ia lhe perguntar algo mas desiste, não quer presenciar nenhum ataque de fúria logo pela manhã. Quando retira o bule de café da mesa, deixa cair no chão, sem querer, o avental que trazia preso à cintura. O marido o pega do chão, faz com ele uma bola e a atira no rosto da mulher com violência, fixando nela os olhos cheios de ódio. O pai de Belisário Júnior sai para trabalhar sem dizer nada e bate a porta.

Belisário Júnior olha os olhos do homem custodiado com desprezo. Ele não lê o jornal nem veste o uniforme asseado de antes. Já tomou o café e aguarda ordens. Os olhos do homem parecem de gelo: nem preocupados, nem furiosos, nem alertas. Só o barulho das chaves que o policial Belisário Júnior leva nas mãos quebra o silêncio entre os dois. Quase como se fosse natural, o molho de chaves cai no chão. Belisário Júnior o recolhe sem deixar de olhar para os olhos do homem. Depois de trancar o preso, Belisário Júnior bate duas vezes na porta e o guarda de plantão lhe dá passagem. Atrás das grades ficou o homem que o policial Belisário Júnior costumava chamar de pai.

 




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