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20 de julho de 2016

Bisnaguinha

bisnaguinha3Nas tardes de sábado, houvesse sol, Antônio vestia sua roupa colorida e larga, pintava o rosto de branco e colocava no nariz a bolinha vermelha. Nos lábios, desenhava com batom vermelho um sorriso de orelha a orelha. Transformava-se no palhaço Bisnaguinha e saía de casa para fazer graça. Procurava espaço no meio das pessoas e estendia seu cobertor no chão. Tocava flauta de um jeito engraçado, e as mães paravam com as crianças para vê-lo. Com um sorriso cândido, provocava gargalhadas nos pequenos, brincava com eles e, no fim, distribuía balões em forma de bichos. Enternecido, dava tchau quando iam embora. Vendo-os assim tão frágeis, segurando firme na mão da mãe, Bisnaguinha não compreendia como alguém seria capaz de fazer qualquer mal a eles.

Lembrava-se de quando, aos quatro anos, seu pai o levava ao circo. Lá havia um palhaço, o Bisnaguinha, o outro. Um dia, disseram pra ele que Bisnaguinha tinha sido expulso e o pequeno Antônio não entendeu o motivo. Mencionaram qualquer coisa como não se faz isso com meninos e mudavam de assunto. E ele gostava do Bisnaguinha, achava que seus olhos eram tristes, mas dava muitas risadas com ele. Na sua meninice, queria saber o que havia atrás daquele sorriso exagerado pintado com batom vermelho.

Hoje, quando chove nas tardes de sábado e não pode ir à rua fazer graça para as crianças, Antônio se olha no espelho e observa as marcas no rosto e na alma que a vida lhe deu — talhos profundos que nunca cicatrizam. E se recorda do outro Bisnaguinha, o da sua infância, o de olhos tristes e sorriso vermelho.

Agora que já é adulto, Antônio sabe bem por que expulsaram Bisnaguinha do circo. E se pergunta por que, no meio de tantos nomes, escolheu justamente o mesmo daquele antigo palhaço para batizar o personagem que usa para ir às ruas nos sábados de sol. Pra fazer diferente e não ser como ele, é a resposta que dá pra si mesmo, na frente do espelho. Porque as crianças não podem ver essas coisas, as crianças são inocentes, são puras, entendeu, Bisnaguinha? Não encoste sua mão em mim… não me toque!

 




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    • Ana Maria, eu gosto muitíssimo de seus comentários. Acho que você sempre capta o que eu quis dizer com meus textos. Muito obrigado por suas palavras. Beijo.

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