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19 de março de 2021

Bodas de prata

Meus pais fizeram bodas de prata e eu lhes dei de presente um jogo de malas de couro acastanhado. Uma bem grande, para viagens prolongadas, uma média, para pequenas ausências, e uma menorzinha, para passeios de fim de semana. Aposentar e viajar, esses dois verbos se completam, costumava dizer o meu agora aposentado pai. Assim que viu o regalo, os olhos do velho marejaram. Andou em volta da maior, avaliou seu tamanho e capacidade e, sem que eu conseguisse evitar, abriu, entrou e se fechou nela por dentro. Minha mãe ligou a televisão para ver a novela. Passei o resto da noite tentando abrir a mala e tirá-lo de lá, sem sucesso. De vez em quando ele dava pequenos golpes por dentro da tampa para dizer que estava bem e que eu ficasse tranquilo. Num acesso de nervos, empunhei um facão disposto a rasgar o couro da mala e expulsá-lo de lá, mas não consegui. Meu pai se mexia o tempo todo e fiquei com medo de machucá-lo. Minha mãe continuava vendo televisão. Não perca tempo com seu pai, disse ela, ele sempre gostou de fazer fricote. Logo se cansa. Conheço essa história há vinte e cinco anos e sei como termina. Vai lá na cozinha, tem bolo.

 




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