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26 de novembro de 2014

Borralho moderno

borralheira

Maristela passou o diabo desde criança. Órfã quando não era mais que um bebê, viveu a infância em orfanatos e casas de parentes. Jogada de um lado para outro, cresceu triste e retraída. Aos onze anos foi levada por uma senhora para viver em sua casa, prestando serviços domésticos. Sua vida tem sido assim desde então: limpar, lavar, esfregar, lustrar. Pouco sabia além da vida no borralho. Aprendeu a ler e a escrever com dificuldade e sorriu timidamente quando descobriu que sabia desenhar seu nome. Apesar dos infortúnios, Maristela não reclamava. Aceitava seu destino como quem recebe um encargo do qual não pode se furtar. Não tinha amigas nem ilusões, nunca teve divertimento. Aos vinte anos era uma moça que pouco falava e só fazia trabalhar.

Um dia, sozinha em casa e ocupada em lustrar o chão da cozinha, Maristela vê surgir de repente a senhora mais bonita que ela já tinha visto na vida. Não conseguia desgrudar os olhos daquele rosto bondoso e sorridente. Reparou em seu vestido branco e na varinha que trazia na mão.

– Querida Maristela, sou sua fada protetora. Tenho visto sua miséria, sua solidão e todo o seu sofrimento ao longo dos anos. Vim até aqui para compensar tudo isso. Vou dar a você o presente que quiser, aquilo que você mais deseja no fundo do seu coração. Com essa varinha eu posso realizar todos os seus sonhos.

Maristela ficou em silêncio e baixou os olhos. A fada, rodopiando em volta dela, tratava de animá-la:

– Veja que vestido lindo! – brandia sua varinha e, num segundo, aparecia na frente de Maristela a mais bonita roupa do mundo. E continuava: “Essa casa maravilhosa será sua! E esse carro, com chofer e tudo” – a fada agitava sua varinha e as coisas simplesmente apareciam na frente de Maristela, que apenas olhava e nada dizia. Viagens, comidas, namorados, joias – tudo passava pelos olhos da borralheira, que não esboçava qualquer reação.

– O que foi, minha querida? Nada disso lhe agrada? Diga-me o que você quer, e eu lhe darei. Qualquer coisa.

Maristela então olhou para a senhora e finalmente disse:

– Qualquer coisa?

– Qualquer coisa – confirmou a fada com um sorriso.

– Eu quero essa sua varinha mágica.

 




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