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9 de dezembro de 2015

Brasa adormecida

brasaEla viajava diariamente na frente dele, no metrô. Nunca trocaram palavra, nem ao menos um olhar, e isso poderia continuar indefinidamente, não fosse uma parada brusca do trem, que quase a deixou no chão. O braço forte dele a amparou antes da queda, Obrigada, moço, caso contrário ela teria se machucado de verdade. Essa mão, e o contato dessa mão com seu corpo, fez com que despertasse algo há muito tempo adormecido dentro dela. Além da mão, havia o sorriso dele, um sorriso em tudo amistoso e gentil. Ela agradeceu novamente e ele sorriu mais.

Já recomposta e de novo sentada em seu lugar, ela fixou, sem que ele percebesse, os olhos naquelas mãos enormes e imaginou coisas. Imaginou, por exemplo, o carinho de que seriam capazes aquelas mãos. Fantasiou cenas, cenários, situações delirantes, impossíveis, proibidas, gemidos, gritos, bocas abertas, saliva, narinas dilatadas, odores, respiração ofegante, suor, alívio.

Saiu bruscamente de seu devaneio quando o serviço de som anunciou a próxima estação. Ela se preparou para saltar do trem e olhou para ele ainda uma vez, incapaz de disfarçar o que sentia. Ele sorriu e disse Tenha um bom dia, irmã. Ela estremeceu ao ouvir a palavra irmã e saiu rapidamente, mal o trem abriu as portas, esquecendo-se até de levantar a barra do hábito para não tropeçar.

 




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9 de dezembro de 2015 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos brasa, fantasia, irmã

              
            
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