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14 de agosto de 2015

Bullying

BullyingDotes físicos não tinha. Antes, era o que se podia chamar de uma garota desprovida de qualquer graça: pele cheia de acne, miopia que a obrigava a usar grossas lentes, dentes maltratados, voz de timbre irritante. Não fazia força para ser agradável. Vivia isolada, amaldiçoava o mundo, cultivava o ódio a tudo e todos. Era um caramujo, sempre dentro da concha. Nunca teve namorado nem amigos e, aos dezesseis anos, estava conformada com sua sorte. Em casa, os pais a tratavam como estorvo e fardo que tinham que carregar sabe Deus até quando. Por tudo isso, esforçava-se mais que todos no colégio e memorizava todas as lições que aprendia nas aulas. Sabia que era sua chance de ingressar na universidade e realizar um sonho há muito acalentado.

Quando soube que saíra o resultado dos aprovados, correu junto com todos os outros para o sétimo andar, onde afixaram a lista. Seu nome não estava lá. Ao perceber, aterrorizada, que lhe apontavam o dedo gritando “não passou, não passou”, não viu outra saída que correr até a janela e lançar-se no vazio, pondo fim a tanta humilhação. Mas o sétimo andar não era tão alto assim.

Agora seus pais a odeiam mais, não só por continuar feia e bruta, mas também por ter se convertido num vegetal.

 




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14 de agosto de 2015 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos bullying, humilhação, vegetal

               
              
            
                

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