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22 de agosto de 2016

Com a cabeça e o coração nos livros

anette3Tive um avô que declamava poemas de amor para as estátuas do parque, um tio que lia sem parar e um pai que rabiscava trechos de Drummond nas paredes de casa. Eu cresci no meio de livros, versos e literatura. Minha mãe, mais prática, só enxergava as entrelinhas e sabia muito bem como as histórias acabavam. Fazia cara feia, falava que palavras não enchiam barriga e que alguém tinha que pôr comida na mesa. Quando fiz quinze anos, me mandou trabalhar na livraria Mundo Vasto Mundo, do seu Carlos, porque aqui em casa tem muito literato, gente muito letrada, muito instruída e tal, mas sem dinheiro não se vive. Vai, meu filho, ser alguém na vida, não seja gauche!

Na Mundo Vasto Mundo aprendi algo que nunca me ensinaram na escola: que os livros novos têm o eco de uma casa desabitada — se ninguém vive nela, não se converte em lar — e que os livros velhos cheiram a baunilha e doce de coco e levam impressas em suas páginas, com tinta invisível, as marcas das mãos e dos dedos que por elas passaram. Os livros, sempre eles, continuavam presentes em minha vida.

Alimentei-me de poemas e contos de amor, novelas épicas e de aventuras, clássicos da literatura universal, enchi meu coração de versos e rimas, até que um dia me converti num dos personagens de um romance que se passa em Paris, no Ano da Graça de 1789. Agora estou aqui, invadindo palácios atrás de reis e rainhas, clamando por liberdade, igualdade e fraternidade e muito apaixonado por uma doce senhorita chamada Anette, que apareceu lá pela página 94. Não vejo a hora de chegar à 231, que é quando nos casaremos, teremos cinco filhos — duas gêmeas — e viveremos no sul da França, onde se faz o melhor vinho e o sol brilha o ano inteiro.

Seu Carlos olha para mim e sorri, porque já viu — já leu — essa história antes. Minha mãe só balança a cabeça e suspira conformada quando me vê chegar do trabalho cantarolando Allons enfants de la Patrie, le jour de glorie est arrivé. Ela se convenceu de que não adianta lutar contra a natureza nem contra as coisas do coração e, entre vencedores e vencidos, entre mortos e feridos, acha que Anette é mesmo uma garota muito simpática.

 




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