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5 de fevereiro de 2017

Cabeça de cavalo

Olha com respeito e reverência para a cabeça de cavalo, a crina encrespada pelo vento e o relincho congelado no brilho da prata. Pertenceu a seu avô e agora o objeto herdado estava sobre sua escrivaninha, imóvel entre papéis e lápis de ponta feita. Ainda conserva na retina a imagem do velho abrindo as cartas recebidas, a cabeça do cavalo bem presa entre os dedos: um corte cirúrgico, perfeito, entre a dobra do envelope e a porção de cola e o mistério estava resolvido. Seu avô abria a correspondência com a precisão de um lutador de esgrima. O papel ganhava uma ferida invisível, uma cicatriz que não se via. Quando aproximava a lâmina do envelope, a cabeça do cavalo parecia se movimentar como uma figura de teatro de marionetes.

Ele bem que gostaria de manejar o abridor de cartas com a habilidade e a arte que tinha seu avô. Todos os dias passa os dedos sobre a crina de prata e jura que ouve o som de um relincho. Há anos espera a chegada de alguma carta — qualquer uma — para usar o precioso objeto.

 




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