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19 de janeiro de 2019

Cacos para uma existência provável

I

Por um momento

pareceu vulnerável e pronto.

Mas não vibrava: era de pedra.

 

II

Formatei meu coração,

atualizei,

reiniciei,

mas não instalei o antivírus.

 

III

A tristeza do poeta

é ter que usar palavras

para explicar suas lágrimas.

 

IV

Sete resmungando

Seis bebendo

Cinco fingindo

Quatro soluçando

Três xingando

Dois dormindo

Um esfriando, endurecendo, arroxeando

 

V

Um balanço parado num parque vazio,

uma grade pontiaguda,

homens trabalhando em silêncio,

um cordão policial isolando a área,

alguns curiosos em volta, esticando o pescoço para ver melhor,

uma ambulância que chega, a sirene histérica,

um corpo inerte, demasiado pequeno, perto da grade.

 

Longe dali, um quarto infantil sem habitante,

um carrinho sem quem lhe dê corda,

uns pais sem filho.

 

VI

Pesadelo recorrente:

um Sansão, uma linda mulher, uma tesoura.

 

Costumeiro despertar:

sobressalto, suor, falta de ar

e o reflexo no espelho —

a cabeça raspada,

o olhar em agonia.

 

Na mesinha de cabeceira

um livro,

uns óculos

e os frascos da quimioterapia.

 

VII

Bigode como de antigamente,

fininho sobre o lábio grosso,

como todos os cidadãos de bem.

 

Um olhar que extermina ideias contrárias,

um Holocausto por dia dentro de casa:

assim é a mão dele, bem no alto,

antes de dar a bofetada que desfaz,

todo santo dia,

a ilusão de normalidade

 




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