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2 de abril de 2015

Cada um, cada um

passarinho_marrom

Com os lábios apertados ela solta primeiro um trinado fino e quase inaudível. À primeira vista parece que foi uma reação ao acaso, solitária, mas aqui em casa sabemos todos que isso foi só o começo e ela passará longas horas cantando. Nós, os demais, seguimos com nossa rotina diária. Papai continua a fabricar os móveis de madeira que nunca serão usados em casa. Madalena, a empregada, cuida dos pratos e do cansaço com a barriga encostada na pia. Minha irmã aperfeiçoa a maledicência na conversa com a vizinha. Eu escrevo e tento criar minha poesia no meio do caos.

Logo se ouve um gorjeio longo, estridente e, como em todas manhãs, vejo mamãe passar pela janela em seu voo de saudação ao sol. Ela voltará ao entardecer e pousará sobre a cristaleira. Vai dormir ali. Eu queria interná-la, mas papai foi categórico:

– Você não quer ser poeta? Pois então: deixe que sua mãe seja um passarinho.

 

 




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2 de abril de 2015 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos cada um, passarinho

               
              
            
                

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