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16 de novembro de 2016

Café amargo

cafe

Roberta dá voltas com a colherzinha na xícara, embora só beba café sem açúcar. Esse gesto — lento, ritmado como o fio d’água que não desiste de tentar furar a pedra — é acompanhado com nervosismo por Carol, que sabe desde sempre que a amiga nunca adoçou a bebida. Carol também sabe que Roberta nem gosta de café, mas toma várias xícaras por dia, e que não fuma, embora raramente seja vista sem um cigarro entre os dedos. Sabe também que a cor favorita de Roberta é o verde, ainda que ela afirme ser o azul.

Elas se conhecem desde a adolescência, cresceram juntas e foram para a vida uma ao lado da outra, compartilhando a experiência de se tornarem adultas. Por isso Roberta sabe que Carol tinha razão quando, com os olhos baixos, disse Amiga, ouça o que estou dizendo, esse moreno não é o seu tipo e, mesmo assim, tinha se casado com ele porque era cheiroso e a fazia rir. Isso foi há vinte anos.

Roberta hoje sabe que seu marido também não é o tipo de Carol, embora ela durma com ele duas vezes por semana. Mas não diz nada, suas palavras seriam como essa colherzinha que em vão dá voltas na xícara na tentativa de tornar o café menos amargo, embora ali não haja um só grama de açúcar.

 




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16 de novembro de 2016 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos açúcar, amargo, amiga, café

              
            
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