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2 de novembro de 2020

Cambalacho

Debruçados na boca das latas de lixo,

os brasileiros ignorados

remexem as sobras

com mãos nervosas e olhos delirantes,

enquanto são ludibriados

pela música da fome.

 

Na boca vazia de dentes,

salão ocioso, orquestra em greve,

a língua esponjosa

dança fora do ritmo

o tango dissonante

e chora desafinada

na companhia da saliva viúva.

 

Não há parceiro ideal para bailar esse cambalacho da vida

— nem Gardel.

 




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