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17 de outubro de 2015

Caminhando à sombra

sombraA senhora enxugou o suor que escorria pela testa, vindo da cabeça. Aproximou-se do homem gordo encostado à parede.

– Acompanhe-me até Santo Amaro e lhe pagarei cem reais, disse ela, aflita.

– Cem, ponderou ele, olhando as unhas. O caminho até Santo Amaro é um inferno, a senhora deve saber.

– Sim, eu sei, mas não são nem duas horas da tarde, rebateu ela. E eu estou muito inchada, vou ter que fazer contorcionismo para não apanhar sol.

– Cento e vinte e forneço um copo de água sem contaminação.

– Cento e dez, sem a água. Um pouco mais de pus na língua não vai me matar.

– Sem água, então. Cento e dez reais, assentiu o homem. Pagamento adiantado, por favor.

Ela tirou as notas da bolsinha e as entregou ao homem. Começaram a caminhar em fila indiana. Ele ia na frente e ela atrás, com dificuldade, contorcendo-se sobre os saltinhos miúdos dos sapatos para se manter à sombra do corpanzil dele e não deixar que o sol, escaldante àquela hora da tarde, lhe fustigasse o corpo. A radiação ultravioleta inundava em cheio o rosto gordo do homem, já devastado pelas chagas.

 




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