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8 de agosto de 2018

Cânticos

Canta, oh, deusa, tudo o que precisamos saber nesta vida — não só a fúria de Aquiles, mas também como no princípio era o Verbo, e o Verbo se fez céu e terra, e se fez homem e mulher, e se fez Paraíso e logo o desterro e a miséria; canta como, durante mais de mil noites, alguém contou a história abreviada da humanidade, e assim soubemos que, na metade da vida, alguém despertou uma manhã transformado num enorme inseto, outro alguém comeu uma madalena e voltou de imediato à alegria da infância, e outro ainda teve dúvidas ancestrais olhando com determinação para os olhos ocos de uma caveira.

Canta, oh, deusa sábia e imprescindível, o momento em que um cavaleiro ousou lutar sozinho contra gigantes invencíveis, o instante terrível em que o noivo queimou os próprios olhos logo depois de se casar, os perdidos olhares de ressaca da rapariga dissimulada, o nascimento e a morte de alguém em algum lugar cujo nome não me lembro.

E canta, finalmente, oh, deusa, com teu canto geral, os mares e as baleias que neles dançam, a noite escura, a madrugada insone, o violino abandonado num canto da casa, os cérebros privilegiados, a árvore que murchou, a doce Santa Terezinha de Lisieux, as ilusões perdidas, o vento que ruge, as sereias e, infeliz e miserável, eu mesmo.

 




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