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28 de março de 2017

Cappuccino

— Aqui está seu cappuccino, senhor — o garçom deposita a jarra de vidro na mesa e uma xícara grande com o pires.

Ela deve chegar daqui a pouco, Gabo pensa. Costumava sempre pedir café num copo de vidro, tinha prazer em apreciar a cor, a textura homogênea e o calor da bebida. Era divertido, mas era triste. Com o cappuccino a espera fica menos angustiante, porque há mais cores e mais ondas a observar nesse líquido de cor marrom. Há também o sabor multifacetado: a mistura de leite, café e chocolate faz a alegria de sua língua. E sobra tempo para imaginar como ela virá vestida, como será o sorriso que enfeitará seu rosto assim que passar pela porta, que coisas terá para contar, como soará o Gabriel, como vai? que ela certamente dirá.

Gabo põe sua cabeça na altura da jarra e num só movimento abre dois saquinhos de açúcar e os deixa cair desde o alto, esperando para ver como os grãos doces penetram no líquido, um a um, como uma pequena revolução centrífuga. Ela prefere usar adoçante, Gabo sorri enquanto vê o açúcar caindo como uma chuva de pó sobre a bebida. Com uma colher de cabo longo, mexe até perder de vista os pedacinhos brancos e o líquido dentro da jarra se converter num redemoinho tão poderoso que poderia tragar tudo ao redor. Surpreende-se pensando em como seria se ele estivesse no centro desse buraco giratório, lutando para chegar até em cima, mas sendo puxado o tempo todo para baixo. Numa situação assim não adiantaria saber nadar, ele bem sabe.

Saboreia uma xícara de cappuccino, depois outra e mais outra até a jarra ficar vazia e transparente. Até se convencer de que ela não virá, como tantas outras tardes, como sempre, como a tormenta que já passou e agora é calma, espantosamente calma. Paga e sai do café com passos resignados e ganha a rua, onde ainda brilham os últimos raios de sol do dia.

Dez minutos depois ela entra pela mesma porta e o procura com o olhar, nervosa por estar mais uma vez atrasada — como em todos os outros encontros, em todas as outras tardes. Senta-se, pede um café com adoçante e começa a esperá-lo. Sabe que ele não virá.

 




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28 de março de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos café, cappuccino, espera

               
              
            
                

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