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3 de dezembro de 2020

Caranguejos

Era a hora em que a maré baixava e os caranguejos saíam de seus esconderijos para correr na areia e morder o que encontrassem. Era também a hora do meu passeio diário pisando o olho d’água. Quase tropeço por acaso na cabeça de um sujeito. Ele estava enterrado até o pescoço. Vivo. Vou repetir para que fique bem claro: havia um homem vivo enterrado até o pescoço na areia da praia, perto do olho d’água. Fiquei de cócoras a seu lado, observando-o, e ele me agradeceu a atenção. Quase chorou ao ver que alguém tinha aparecido para lhe salvar. Quando percebeu que eu não fazia nada para tirá-lo de lá, primeiro me dirigiu palavrões, em seguida me prometeu dinheiro para ajudá-lo a se livrar. “Sinto muito”, eu disse, enquanto espantava os caranguejos que se aproximavam, “mas pense o senhor no inusitado desta cena. Veja só, eu andando aqui na praia, encontro uma cabeça enterrada na areia e uns caranguejos em volta, querendo morder sua cara e seu pescoço e suas orelhas. Isso é extraordinário, tenho certeza de que jamais terei outra oportunidade na vida para ver algo assim.” Continuei observando-o por alguns minutos. Quando me cansei, desejei-lhe boa sorte e segui o meu caminho, olhando de vez em quando para trás.

 




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