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15 de dezembro de 2020

Carmen, a faxineira prática

Os familiares da morta explicaram que queriam a casa limpa o mais breve possível, já havia um comprador interessado. O imóvel precisava virar dinheiro logo e ser dividido entre eles. Perguntaram a Carmen se não tinha medo de entrar sozinha na residência de uma defunta. Ela respondeu que deixou o medo lá na terra dela, depois da chacina que matou seus irmãos. Que necessitava trabalhar, que trabalhava desde criança e que não escolhia serviço. Que gente morta não fazia mal a ninguém, só gente viva. Que faxina era faxina, não tinha segredo nenhum, era só deixar tudo limpo e pronto. Que pedia a Deus para nunca lhe faltar trabalho, fosse em casa de vivo ou de morto, tanto fazia. Que, brincou ela, um leproso nunca reclama de uma ou duas feridas a mais. Carmen era uma mulher prática. Não quis saber de alongar a conversa fiada e tratou logo de combinar dia, horário e pagamento para fazer o trabalho. Informou que levaria o próprio material de limpeza. Disseram para voltar no dia seguinte, às dez horas.

Carmen gira na fechadura a chave que lhe deram, empurra a porta de madeira escura e olha o ambiente por alguns segundos. Casa pequena, em dois palitos eu limpo isso aqui e recebo o pagamento, ela calcula. O silêncio lhe agrada. Morte recente, ninguém da família mexeu em nada ainda. Devem ter medo de entrar aqui, pensa Carmen. É a primeira vez que limpa casa de defunto. Isso é bom, avalia ela, não vai ter patroa enxerida e de mau humor vigiando o serviço nem espreitando se ela roubava alguma coisa. Fecha a porta com o calcanhar. Veste o avental, prende os cabelos, coloca as luvas de borracha e começa a faxina pelo banheiro.

A falecida deixou meio rolo de papel higiênico no suporte e um tubo de pasta de dente quase cheio em cima da pia. Carmen pega os dois e os guarda no bolso do avental. Os tempos não estão para se ter nojo de nada e ninguém vai notar a falta. Esfrega o vaso sanitário e a banheira com limpa-manchas abrasivo e depois aplica desinfetante perfumado. Passa pano no chão, que brilha. Fecha a porta e vai para outro cômodo.

Na cozinha, encontra um saca-rolhas e uma garrafa de vinho pela metade sobre a mesa. Põe o saca-rolhas no bolso. Essas coisas custam barato no mercadinho, Carmen pensa, mas se não precisar pagar por elas, tanto melhor. Cheira a boca da garrafa e faz careta: o vinho azedou. Joga a bebida fora e lava a garrafa. Esfrega tudo com detergente antigordura. Limpa o piso e sai. Na sala quase sem móveis, Carmen olha para a cortina listrada de tecido grosso. Decide levá-la, deve servir para alguma coisa. Sobe num banquinho para tirá-la do varão, sacode a poeira e a dobra. Pode virar uma toalha de mesa ou uma colcha para sua cama. Se alguém perguntar, ela dirá que não tinha nenhuma cortina na janela. Na pressa de vender a casa ninguém vai reparar nesses detalhes.

Por último, o quarto da falecida. Carmen encontra uma bonequinha de pano jogada no chão. Guarda-a no bolso do avental, porcarias assim sempre têm alguma utilidade. Decepciona-se ao ver a cama sem lençol e sem colcha. Avalia o colchão: pesado e grande demais, não teria como levar, a família daria pela falta. Carmen suspira e se conforma. Passa o aspirador no piso e um pano com lustra-móveis nas portas do guarda-roupa. Ouve um ruído parecido com um gato arranhando a madeira, vindo de dentro do armário. Abre a porta. Uma menina de presumíveis quatro anos está encolhida e parece assustada. Carmen olha a criança e tem vontade de pegá-la no colo. Antes, faz cálculos: é bonitinha e parece saudável, mas cuidar dela, assim pequena, vai custar um bocado de dinheiro, além do tempo necessário até criar corpo e conseguir trabalhar. Escola, roupa, comida, brinquedos: coisa demais, muita despesa, não valia a pena. Carmen deixa a menina no fundo do armário e fecha a porta. Termina de tirar o pó e limpar o chão do quarto. Dá a faxina por encerrada e sai para devolver a chave e receber o pagamento.

 




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