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11 de fevereiro de 2020

Carnaval

O homem vestido de regicida se aproximou do cortejo, tirou do bolso a pistola de plástico e deu um tiro de água no sujeito disfarçado de rei, que estrebuchou, caiu do salto e fingiu que morreu. Os homens e mulheres fantasiados de povo aplaudiram e quiseram fazer passeata para comemorar, mas os policiais, muito elegantes em seus trajes estilizados, impediram qualquer tentativa de sublevação. Levaram o regicida a um imenso cenário que representava a Corte Suprema. Lá, um juiz e vários homens paramentados com uniformes militares declararam sua culpa e o condenaram à morte pelo assassinato do rei. Cumpra-se a execução imediatamente, decretou o juiz. A fantasia do pelotão de fuzilamento era impecável, assim como a do general, que, espada em riste, pronunciou as três palavras da cerimônia: Preparar!, Apontar!, Fogo!, esta última com intensidade maior do que a necessária (o general era cantor de ópera e costumava emitir Dós de Peito afinadíssimos). Ouviu-se um traque parecido com tiro de chumbinho de espingarda, depois outro, outro logo após. O regicida caiu e o sangue, muito bem disfarçado de sangue, brotou de seu peito. Isso é Carnaval!, ou algo assim, gritou ele, antes de fechar os olhos e fingir que morria. Depois todos se abraçaram e — rei, regicida, juiz, militares, general, policiais, povo — saíram dançando pela avenida ao som de “Tanto riso, oh, quanta alegria, mais de mil palhaços no salão…”*

* Verso da canção carnavalesca “Máscara Negra”, de Zé Kéti e Pereira Matos

 




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11 de fevereiro de 2020 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos Carnaval, general, juiz, povo, regicida, rei

               
              
            
                

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