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2 de outubro de 2015

Carpideira

carpideira3Nem bem o sol tinha fechado os olhos, Valdete gritou do portão Jandira, o seu Rubinato passou. Foi agorinha. O corpo vai chegar às nove. Pediram pra te chamar.

Jandira parou de lavar a louça por um momento, olhou para a cama onde Luciana dormia e gritou de volta Avisa que eu vou. Foi até o quintal, ergueu-se na ponta dos pés e colocou a cabeça sobre o muro. Dona Geni, pode olhar a Luciana hoje à noite? Tenho trabalho. Vou deixar a janta pronta.

Aviou-se. Comida feita no fogão, tomou banho e tirou o vestido preto do armário. Estava limpo e não precisava passar. Vestiu-se e ficou pronta, esperando dona Geni chegar. Sentou-se na cama ao lado de Luciana e acariciou a cabeça da menina que ressonava. Será que está sonhando? Procurava mais uma vez, com os dedos, entender o que acontecia sob aqueles cabelos pretinhos. Sussurra O que tá errado aqui, Luciana? Hein, filha? Que defeito tem aqui dentro que te impede de ser como as outras crianças? E essa febre agora! Vou pedir pra dona Geni fazer compressa morninha.

Primeira a chegar na casa de seu Rubinato, Jandira olha a sala preparada: móveis cobertos por lençóis, cadeiras encostadas às paredes, o centro vazio à espera do corpo dentro de um caixão. Senta-se. Permanece em silêncio quando a urna chega e a depositam no meio da sala. Acendem velas ao redor. A cadeira da viúva é posta ao lado da cabeça do morto. As filhas ajeitam a gravata de seu Rubinato. Aos poucos, a sala fica cheia de rostos graves e bocas que falam baixinho. Jandira olha e espera. Então começa.

Com um ai prolongado, Jandira aproxima-se do caixão Que a alma deste bom homem encontre a paz nos braços do Senhor, acaricia suavemente as mãos do defunto cruzadas no peito, e chora. Chora e entrecorta o choro com Agora descansou, Tão bom era o seu Rubinato, Foi a vontade de Deus. Aos poucos o choro de Jandira contaminou os olhos de todos. Sentados ou em pé, olhavam o morto e balançavam a cabeça. Assoavam o nariz com ruído. Serviam-se de café com biscoitos, entre uma lágrima e outra. O lamento vindo da casa do seu Rubinato atravessou a noite e a cidade.

A manhã já despontava quando a viúva pôs nas mãos de Jandira o pagamento pelo trabalho. A carpideira agradeceu, desejou boa sorte à família e despediu-se. Foi a pé para casa, cansada de tanto chorar.

Dona Geni a esperava no portão. Jandira viu, pela cara da vizinha, que algo não estava bem. Luciana! Soube de pronto que iria chorar mais naquele dia. E não seria por dever de ofício.

 




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2 de outubro de 2015 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos carpideira, choro

               
              
            
                

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