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21 de agosto de 2015

Carta para Maria Santa

cogumelos1Maria Santa, quero muito lhe dizer umas coisas. Coisas que andam acontecendo aqui em casa, desde que você foi embora. Coisas incríveis, sabe? Os primeiros que vi estavam atrás da geladeira. Eu os encontrei numa manhã de setembro, justo naqueles dias de passagem do inverno para a primavera, quando a solidão fica mais pesada. Lembro-me de que fazia um mês que você tinha partido e eu estava me sentindo tão só, tão só, que resolvi limpar toda a casa para me ocupar. Arrastei a geladeira e os vi.

Eram dois. Não fiquei muito surpreso quando os encontrei. Lembra-se de que falávamos que nossa casa era muito úmida? Além disso, ontem à noite choveu bastante. Sei disso porque o barulho da água batendo na janela me despertou de madrugada, e eu não pude mais pegar no sono. Também não consigo me acostumar a dormir sozinho, Maria Santa, e qualquer bobagem, como o barulho da chuva, faz com que meus olhos permaneçam abertos.

Poucos dias depois vi mais alguns, debaixo da mesinha de canto e também sob o sofá. Estava arrumando os livros na estante, lembrando-me de como fazíamos isso juntos. Encontrei uma verdadeira colônia deles atrás do móvel, e já estavam se espalhando pelo rodapé. Como crescem! Brotam do assoalho como se isso fosse natural. Não consigo compreender, Maria Santa. Parecem suculentos e apetitosos, e poderiam muito bem fazer parte de uma saborosa refeição. Aliás, pensei nisso: convidar você para jantar e conversar. Você ficaria surpresa com as habilidades culinárias que adquiri desde que você foi embora. Procurei na internet o melhor modo de prepará-los, mas não encontrei nada sobre essa espécie que há aqui. E se forem venenosos?

À noite descobri outro grupo deles debaixo da cama, quando estava procurando meus chinelos. Eu sei, Maria Santa, esta casa sem você é um caos, não acho nada, onde andavam meus chinelos? E digo mais: na manhã seguinte, ao pegar uma camisa limpa, vi dezenas deles dentro do armário. Se você estivesse aqui, Maria Santa, eles…

A casa, em pouco tempo, ficou infestada de cogumelos. Crescem em qualquer canto, sobre a escrivaninha, no teto, no banheiro, sob a pia da cozinha. Até comprei um livro que falava deles, mas, novamente, nenhuma informação sobre essa espécie. Acho que tenho aqui um tipo ainda desconhecido de cogumelo. Vou chamá-lo de “cogumelo do homem só”.

São bonitinhos e quase não me dão trabalho. Eles não são como as suas plantas, que exigem cuidado e atenção. Eu cuidei delas, sabe? Coloquei água e as deixei ao sol, para que, quando você voltasse, não as encontrasse murchas. Mas eu sempre me esquecia de que já tinha regado, e punha água novamente. Um dia morreram afogadas pelo excesso de cuidado meu. Sob suas mãos, Maria Santa, seguramente isso não teria acontecido. Os cogumelos, não, eles não precisam de nada. Eles são assim, crescem em qualquer lugar sem ajuda, sem que lhes peçam. Apenas brotam. Gosto de acordar de manhã e ver os novos que surgiram durante a noite.

Falo sempre com eles. Falo sobre você. Digo que, um dia desses, você cruzará a porta e os conhecerá. Também ponho músicas para tocar, aquelas que ouvíamos juntos. Às vezes leio poemas, principalmente os do Neruda daquele livro que você me devolveu sem nunca ter lido. Eu sinto que eles gostam e estão agradecidos. E crescem. Um deles, que brotou no canto da sala, já está com quase um metro de altura. Eu o utilizo como mesinha para o telefone e para o café. Olho para eles enquanto as horas correm. Mas as horas são lentas, Maria Santa. Desde que você me deixou, uma hora leva duas para passar.

Estou ficando angustiado, porque a casa está inteira tomada pelos cogumelos. Tenho que fazer esforço para me movimentar e andar até o quarto. Não consigo mais sair, porque eles já bloquearam o corredor e a porta. E as janelas também. Às vezes, sem querer, piso num deles, e ouço seu gemido de dor, parecido com o som que sai do meu peito. Já não há mais espaço para mim aqui.

Tudo está coberto pelos cogumelos, Maria Santa, tudo!

 




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