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20 de fevereiro de 2017

A carta que veio dos Estados Unidos da América

Hoje recebi uma carta dos Estados Unidos da América. Não tenho dúvidas de que, a partir de amanhã, o carteiro me olhará de outra maneira, com mais respeito. Depois do jantar vamos abri-la, a família reunida na sala sob um silêncio profundo e obsequioso. Trata-se de uma carta dos Estados Unidos da América, e isso não é pouca coisa. Abrir um envelope com essa origem exige cerimônia e, por isso, os que conseguirem, prenderão a respiração. Minha filha mais velha, por exemplo. Ela nunca se esquece de ter à mão um lencinho de organdi, presente da mãe. Sabe que vai chorar, como sempre acontece em situações assim, revestidas de alguma tensão. Eu procuro controlar a minha emissão de ar, inspirando e expirando a intervalos regulares, sem fazer muito ruído.

No momento acordado, a louça lavada e a cozinha limpa, todos se sentam em volta de mim. Não exatamente em volta, mas aos meus dois lados, o esquerdo e o direito, de maneira que eu possa dirigir a todos meu olhar e minha voz durante a leitura. O primeiro som que quebra o silêncio é o do papel se rasgando. Passo os olhos rapidamente pelo papel cheio de letras estilo Times New Roman e procuro, em poucos segundos, apreender todo o conteúdo. Finjo uma tossezinha nervosa. Ergo a vista para os demais e sorrio. Queridos pais e irmãos… Começo a ler com voz pausada, num volume que, intuo, chega a todos os ouvidos presentes. Limpo a garganta para continuar. Estou bem de saúde e espero que todos vocês também estejam. Faço uma pausa e prossigo a leitura em silêncio, apenas com os olhos, emitindo ruídos incompreensíveis como parari pororó e ahã ahã. Dobro o papel e o guardo no bolso da calça. Olho para todos:

— Felizmente vive muito bem o nosso Carlos. Tem automóvel, geladeira e televisão. Quando passa por uma loja, diz “quero” e poucas horas depois a mercadoria está na casa dele. Comprou apartamento e tem mais de vinte anos para pagar. Vai liquidar a dívida com folga, é claro, já que tem emprego fixo e um bom salário. Manda beijos para todos e pensa em nos visitar no fim do ano.

Minha mulher chora. Minha filha mais velha chora, com o lencinho de organdi sob o nariz. Tio Anacleto e o vovô Arquimedes olham pela janela, em silêncio. Eu procuro não pensar em nada, mas não consigo: penso, porque é impossível não pensar em algo quando se recebe uma carta dos Estados Unidos da América. Chega a ser ridículo, mas passam por meus pensamentos as imagens das cataratas do Niágara, que vi num filme antigo, em preto e branco. Meu filho vive a três mil quilômetros das cataratas, mas consigo visualizar, com pequeno esforço, sua figura magra passeando pelos andaimes com um guarda-chuvas sobre a cabeça. São muito escorregadios aqueles andaimes.

Minha mulher me pergunta Em que está pensando agora? Eu poderia responder Nas cataratas…, mas acho que ela não acreditaria. Vou inventar alguma história maravilhosa e assim ela ficará sossegada. Não poderia lhe dizer o que realmente se passava em minha mente. Não poderia lhe dizer, por exemplo, que pensava no quanto seria difícil transportar um ataúde dos Estados Unidos da América até a nossa cidade. Como isso poderia ser feito? Os caixões com defunto dentro são levados em navios ou aviões? Será que são suspensos em guindastes, como os automóveis? Seria muito estranho ver um ataúde balançando no ar…

A carta que veio dos Estados Unidos da América, com seu timbre oficial do governo, continuou no bolso de minha calça, intocada, até o dia seguinte. Convocarei nova reunião familiar para esta noite, e todos vamos envelhecer um pouquinho. Minha filha mais velha vai chorar, é certo, mas ela tem seu lencinho de organdi a postos. Minha mulher também vai chorar, porque ela chora sempre. Todos devem entender, no entanto, que, às vezes, é necessário dizer as coisas com todas as letras.

 




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  1. A carta pode vir de qualquer lugar do mundo, a notícia, sempre, será difícil de ser dada!!!
    Deixou a ideia no ar, ou melhor dizendo, na entrelinhas…. Gostei muito!!!
    Abraços
    Leman

  2.     
                        
              
            
                

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