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17 de abril de 2018

A casa sem goteira

O portão do cemitério gemeu como um bezerro recém-parido. Estava enferrujado e não via pintura nova há séculos. A última vez em que foi aberto foi há quase três anos, quando Francisca foi enterrada. Naquele dia, caixão nos ombros, os homens do povoado ficaram perdidos no terreno, procurando um lugar onde depositar aquele peso entre os arbustos e o mato que crescia a cada chuva. As mulheres iam atrás, cantando ladainhas. Não pouca gente duvidava de que ali fosse mesmo um cemitério, esse pedaço de terra tão abandonado e sem tumbas aparentes. É que aqui ninguém vem visitar seus mortos; vêm pra enterrar eles e nunca mais voltam. O mato cresce todo dia e o silêncio é o que mais incomoda num lugar como esse.

Meu nome é Juvenal, e às vezes sou coveiro, o único do povoado. Eu cuido de enterrar quem morre porque ninguém quer fazer esse mister, então eu faço. Como eu disse, aqui ninguém visita seus mortos, e por isso os mortos deste povoado estão mais mortos que qualquer outro defunto. Eles ingressam no esquecimento antes mesmo de morrer. Ficam velhos e já ninguém se importa com eles. São mortos em vida. Um dia morrem de verdade e os parentes trazem o caixão. Aí me chamam e eu enterro eles, cavo a terra, faço o buraco e boto a urna dentro. Como agora com a Francisca.

Eu nem mesmo disse a eles que a Francisca não era natural do povoado, ela era de um pouco longe, mas veio morar aqui depois que a Gorete sumiu atrás de homem. Aí a Francisca foi morar na casa dela, deviam ser parentes, sei lá. O fato verdadeiro é que naquele tempo não se podia desperdiçar uma casa que não tinha goteira, coisa muito rara. E a casa da Gorete era assim, ficava seca quando chovia. Com o sumiço da Gorete, a Francisca foi morar lá.

Também não contei que naquele caixão estava a Francisca, que importava isso pra eles? Era alguém que tinha morrido e pronto, precisava ir para debaixo da terra. Eu não falei que era a Francisca porque senão todo mundo ia querer se apossar da casa dela, a casa sem goteira. Os invernos aqui no povoado são duros de aguentar, chove muito, e eu já não tenho mais idade pra ficar trocando telha.

 




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17 de abril de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos caixão, casa, cemitério, goteira, mortos

              
            
  1. Querido Mário, adorei seu texto , muito interessante ,ficamos imaginando a vida neste povoado.
    Parabéns.
    C/ vc está ? Fique com Deus. Bjs

    • Obrigado, Clélia, pela leitura e visita ao blog. Eu estou indo bem, me tratando direitinho. O principal agora é ter paciência e fazer tudo o que o médico mandar. Vai dar tudo certo. Beijo.

  2.     
                        
              
            
                

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