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2 de fevereiro de 2017

Cena de doçura familiar explícita

Meu pai costumava morrer de vez em quando. Não era uma coisa deliberada; ele simplesmente morria e pronto. Ficava deitado no chão, olhos fechados, as mãos postas sobre a barriga sobre a qual eu e meus irmãos pequenos gostávamos de pular aos gritos e gargalhadas. Minha mãe nos olhava e balançava a cabeça como quem diz esses meninos ainda vão estourar essa pança. Lembro-me de que, um segundo antes do último suspiro, ele dava o seu melhor sorriso para todos nós e iniciava a viagem, que é como ele se referia ao seu falecimento. Acenava com suas mãos peludas e parava de respirar. Costumávamos cutucá-lo mas, para nossa decepção, ele permanecia imóvel, do mesmo jeito que a lavadora de roupas ficava após a centrifugação: uma coisa inerte, que pedia providências para continuar o ciclo de lavagem. Minha mãe se vestia de preto, desligava a televisão, que ver televisão com um defundo em casa é pecado e Deus castiga. Todos chorávamos em uníssono o passamento de meu pai.

Quando ele voltava à vida e abria os olhos devagar, espiando como estávamos nos comportando depois de sua morte, meus irmãos e eu ríamos e dançávamos em volta dele. Minha mãe sempre o recebia com um muxoxo e brava por ter deixado a família sozinha e desamparada. Ele então a abraçava e cochichava coisas em seu ouvido: falava dos anjinhos, das almas e do purgatório; contava de quem tinha encontrado por lá e do cheiro de flores e maresia que havia no ar. Minha mãe desfazia a cara amarrada e cedia ao abraço e em seguida mandava que fôssemos para a cama. Do nosso quarto ouvíamos como os dois continuavam a sussurrar e a soltar risinhos abafados. Meu pai sempre foi um grande vivedor nessa coisa de morrer. E minha mãe sempre terminava por perdoá-lo. Fez isso até a morte.

 




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