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23 de novembro de 2018

Chet e o músico de jazz

Anoitece. Chet para numa esquina, apoia as costas na parede de um edifício e fecha os olhos. Ouve com atenção as notas do sax tenor que serpenteiam entre as árvores daquela praça abandonada. Espírito arriado, sem trabalho, sem mulher, sem casa, sem nada, Chet tem fome e mastiga a boca seca e quase sem dentes. Caminha na direção do som e se senta perto dos jovens marginais e sem futuro que estão ali, absorvidos pela música que sai do instrumento brilhante do artista de rua. Ouvem jazz, e gostam. Esticam as pernas, tragam seu cigarro, olham para o céu. Chet sente-se amigo deles. O artista toca um grande repertório, de Young a Coltrane, de Hancock a Monk, improvisa, leva o corpo nas ondas sonoras que produz com a força dos pulmões e a abertura certeira dos lábios.

O que Chet não daria para tocar seu trompete como o saxofonista toca o seu! O que Chet não daria pela juventude daqueles rapazes da periferia, tão apartados da vida da cidade e dos homens práticos, e tão interessados em música! Têm a energia que Chet já perdeu, e seguem vivendo, apesar de tudo. Ninguém suspeita o que acontece quando o músico de rua executa canções inexistentes com o seu instrumento, repletas de dissonâncias selvagens e plenas de sentido, colocando numa corda bamba a delicada relação entre harmonia e melodia. Ninguém desconfia por que, noite a noite, um dos rapazes não volta nunca mais para a praça abandonada onde o artista de rua parece chorar a cada nota produzida por seu sopro. Só Chet sabe. Por isso regressa em todo anoitecer e espera.

 




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23 de novembro de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos instrumento, jazz, música, noite, praça

               
              
            
                

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