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26 de janeiro de 2016

Ciclo

cicloNasci na última madrugada, forçado por minha mãe, que contorcia a barriga e me dava empurrões. Quando o galo cantou e o dia trouxe as primeiras luzes, a adolescência me abraçou e eu me pus contra todos. “Quero mudar o mundo”, eu gritava. Não houve eco e essa foi a primeira vez que me senti verdadeiramente sozinho.

Conheci a pessoa com quem compartilharia o resto de minha vida quando a manhã ia alta e o sol já estava quente. Ao meio-dia presenciei o nascimento de meu primeiro filho e chorei a morte de meu pai. À tarde fui um pouco feliz até a morte de minha mãe. Essa foi a segunda vez que me senti sozinho.

Pouco depois nasceu meu neto, e foi uma felicidade bastante grande. Me senti parte de um ciclo interminável que mistura vida e morte, alegria e tristeza, aconchego e abandono, sorte e azar, sim e não.

À tarde, com o sol perdendo força e dando passagem para as luzes opacas da noite, minha mulher me abandonou. Pela terceira vez a solidão disse Aqui estou! e eu soltei meu corpo na poltrona e fiquei em silêncio. Desde esse momento é com ela que divido minhas horas e meus passeios pelo parque, quando, dizem, eu costumo falar com meus botões.

Viver é tão breve e efêmero que agora, com a noite preta em todo o seu esplendor, ainda sinto o frio da lâmina da tesoura que cortou o meu cordão umbilical.

 




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26 de janeiro de 2016 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos ciclo, dia, noite, vida

               
              
            
                

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