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29 de agosto de 2017

Cinzeiro

Ainda sai fumaça do cinzeiro, mas a Carol não está mais aqui. Se eu fosse ou tivesse olhos de poeta, veria o rosto dela nas cinzas, nas dobras da almofada no sofá, no eco da batida da porta quando ela foi embora. Mas meus olhos são dois olhos apenas, e só vejo aquele rosto nas fotografias que não quero olhar. Prefiro beber o bar inteiro e me aproximar perigosamente da varanda do 18º andar.

Se os ipês que vejo lá embaixo fossem poetas, certamente fariam uma serenata em amarelo e cor de maravilha sob a minha janela e transformariam o vento que os embala numa história com começo, meio e fim — uma história para explicar aquilo que não compreendo. Aquilo que ficou no ar quando Carol levantou o rosto da almofada, jogou a bituca ainda acesa do cigarro no cinzeiro e foi rua afora batendo a porta. Mas os ipês são somente ipês, e o vento, apenas ar com um pouco de raiva e fúria.

Tudo é o que é. Nada foge à própria natureza, salvo a ausência, a dor e algumas canções.

— E alguns filmes, uns livros, umas lembranças — me diz o cinzeiro, enquanto olho para ele e para as cinzas dentro dele, tentando inutilmente encontrar, em alguma chispa, o rosto da Carol. Acho que o cinzeiro, ao contrário de mim e dos meus olhos, é um poeta.

 




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29 de agosto de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Prosa Poética cinza, cinzeiro, natureza, poeta

               
              
            
                

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