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5 de julho de 2018

Código de barras

Ordenou as notas pelo valor, as maiores embaixo, as menores em cima. Dobrou o maço e passou o elástico, anotou a féria na caderneta e fechou a registradora. Assim começava o melhor momento do dia: quando tudo terminava. Sonhava, por um instante só, que era dona daquele dinheiro e nunca na vida tinha trabalhado como caixa de supermercado, passando os produtos pelo leitor de códigos de barras e dando troco, uma e outra vez, o dia inteiro. Agora respira aliviada. Só amanhã.

Ia para casa descansar, mas lembrou-se de que lá tampouco teria sossego, e nem precisava de leitor de código de barras para saber o preço a pagar: tinha tudo na memória e na pele. A boca cheia de saliva do marido, cheirando a cachaça, era sinal de uma noite cheia de cutucões e encoxadas, a libido bêbada querendo o que ela não queria, mas que fazia só para acabar logo com aquilo. O olhar ausente do filho também era conhecido: não cabia mais nada naquele cérebro, nem um grão de poeira, e isso já tinha sido suficientemente chorado, amargurado, conformado, aceito. A tossezinha irritante do pai jogado no sofá alertava para o início de um novo pequeno incêndio, o cigarro aceso entre os dedos amarelados e a sonolência de sempre.

Abriu de novo a caixa registradora e voltou a se sentir dona daquele dinheiro. Nem pensou: meteu o maço na bolsa, saiu do supermercado e caminhou na direção oposta de sua vida.

 




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5 de julho de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos código de barras, dinheiro

               
              
            
                

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