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8 de junho de 2017

Coisa de louco

O que comentam é que Gabriel não tinha como saber a verdade, já que foi criado por freiras num orfanato. Não conheceu os pais nem ninguém de sua família biológica. Mal tinha nascido quando uma vidente, dessas que ganham a vida enganando gente ignorante, sussurrou no ouvido da mãe: Essa criança nasceu com olho grande, a cabeça tem um formato estranho e prevejo tragédia no futuro. Livre-se dela o quanto antes. Foi o que fez a mãe de Gabriel: entregou-o às freiras, com a concordância do marido.

Gabriel ficou no orfanato até os onze anos e certo dia disse às freiras Valeu, meninas, tô indo, muito obrigado! E jogou a perna no mundo. Vagabundeou até os dezesseis, morou na rua, viveu de pequenos furtos, fumou umas quantas pedras e se deixou levar pela vida. Num dos assaltos em que se meteu, o homem gordo não quis lhe dar a carteira e o celular e Gabriel não hesitou em despachar o tipo com dois tiros na altura do coração. Escondeu-se por um tempo até completar dezoito anos.

Já maior de idade, com o corpo ganhando contornos de virilidade, percebeu que agradava ao sexo oposto e conseguiu emprego num clube de striptease. Todas as noites se vestia de marinheiro e se despia no palco para o aplauso e o grito das mulheres em êxtase. Foi quando conheceu uma mulher madura, viúva e muito rica, que lhe prometeu dinheiro e proteção em troca de carinho. Gabriel logo foi morar com a amante e em poucos dias virou o homem de confiança da dona da casa. Passou a desfrutar de delícias: carros, passeios, viagens, restaurantes, festas.

Quando menos esperava, Gabriel recebeu a visita de dois policiais, que tinham provas de que ele assassinara o homem gordo, anos antes. Suas impressões digitais na roupa do morto o denunciaram. E mais: exames de DNA comprovaram que, na realidade, o homem assassinado era seu pai verdadeiro. A prisão, portanto, era o seu destino e, sem alternativa, pediu ajuda à velha amiga protetora. Em vão. A mulher não era outra senão a viúva do homem gordo e, portanto, sua mãe biológica.

— Meu Deus, que história inacreditável! E Gabriel, o que foi feito dele?

 Na prisão. Quase louco. E cego. Mal entrou na cela, num acesso de fúria incontrolável arrancou os próprios olhos para não ter que encarar a realidade: ele tinha matado o pai e ido para a cama com sua verdadeira mãe.

 — Que tragédia! Não me recordo de ouvir uma história parecida com essa em toda a minha vida.

 Eu também não. Coisa de louco, não?

— Nem me fale. É de pôr os cabelos em pé.

 




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8 de junho de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos criança, filho, louco, mãe, pai

              
            
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