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19 de janeiro de 2020

Coisas deste mundo

1.

No galho mais alto

de uma árvore incinerada

e meio morta,

fazem ninho,

raminho a raminho,

os pássaros cegos.

 

2.

Um dia desses

a fúria explodirá

e voltarei para casa

carregando um saco

com os olhos, línguas e traqueias

que encontrarei no meio da rua.

 

3.

Aí mesmo,

ao dobrar a esquina

dos próximos anos,

cheio de culpas e queixas e despedidas,

nos espera

nosso esgotado e desesperançado futuro.

 

4.

Vendemos diariamente

a vida,

os espantos

e a nossa liberdade

por um triste prato

de lixo cotidiano.

 

5.

Já não busco.

Fujo.

 

6.

Dentro de nós,

encoberto e expectante,

está aquele

que (ainda) nunca fomos.

 

7.

José Saramago não morreu.

Às 15h34 de hoje

ele subiu no ônibus na Praça da República,

perto do Largo do Arouche.

Caminhou lentamente pelo corredor apoiando-se na bengala

e sentou o corpo mirrado e tímido na poltrona à minha frente.

Aproximei-me para cumprimentá-lo com alegria,

mas seu olhar de súplica me fez desistir.

Quando chegou a minha parada,

me despedi dele com um olhar cúmplice.

Ele queria passar despercebido

e não seria eu a traí-lo.

 

8.

Um ano depois do outro,

horas tresnoitadas,

o corpo debruçado sobre o balcão do bar,

entre solidão e tristezas infinitas,

bebeu dois apartamentos,

um carro em estado razoável

e uma casa na praia.

Deixou a seus herdeiros,

além de nada,

um fígado com cirrose,

lindamente decorado como uma catedral.

 

9.

Neste teatro,

neste circo bufão,

que o leão devore o palhaço

é uma grande e terrível tragédia.

Que o palhaço coma o leão

é uma advertência.

 

10.

A velha desgrenhada,

por louca,

colocaram-na no manicômio.

Insistia em falar com o marido

e com os dois filhos, todos mortos,

justificaram.

Agora os quatro conversam e tomam chá

no quarto 126.

 

11.

Aos tristes de coração

a vida nos deve algo.

Talvez um abraço apertado

bastasse para nos pagar.

 

12.

Vi-a passar como uma gôndola,

deslizando diante dos meus olhos.

Eu ainda permaneço em Veneza,

sem jamais ter estado lá.

 

13.

Desde o Gênese até hoje,

tanta ignorância desalenta:

nascer,

crescer,

amadurecer,

envelhecer,

morrer,

ninguém sabe por quê,

para quê,

ninguém sabe nada,

ninguém,

nada.

 

14.

Como podem observar,

hoje comemos as sobras de anteontem.

Amanhã comeremos as de ontem.

Depois de amanhã

comeremos as sobras de hoje e,

se hoje comemos as sobras de anteontem,

que mistério há nisso?

Será que não cozinhamos nem ontem nem anteontem?

Não cozinharemos amanhã.

Com tanta sobra, para quê?

 

15.

Para gozar a chuva

— esse fenômeno —

do modo que a chuva merece,

mais proveitoso que abrir um guarda-chuva

(com o transtorno de perdê-lo ou esquecê-lo

e perceber justo na hora em que a chuva começa),

 

melhor do que isso

é abrir sob o temporal um livro numa página de poesia,

em que as palavras proporcionem luz.

Que a chuva empape cada verso.

 

Permita que as palavras te comovam.

Permita-se.

 




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19 de janeiro de 2020 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Poesia coisas, mundo

               
              
            
                

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