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17 de abril de 2019

Com um grito preso na garganta

— E então, que arma prefere?, perguntou o homem, pouco à vontade, olhando para os lados, impaciente, querendo acabar logo com a conversa.

— Revólver. Um tiro na nuca, respondeu a moça, os olhos baixos.

— Negativo. Muito barulho, ruim pra mim.

— Navalha então. Na garganta. O importante é que seja rápido.

— Onde? Quando?

— Aqui mesmo. Hoje.

— Já percebi que a moça tá querendo urgência. Aí é mais caro.

— Dinheiro não é problema. Vou fazer o cheque.

O homem riu. Nervoso.

 — A moça não entendeu. Isso é um negócio. Só dinheiro vivo. Ali tem um caixa eletrônico. Eu espero aqui. Não tenho pressa.

Na volta, a moça enfiou um maço de notas no bolso do paletó do homem.

— Tem bastante aí, mais do que você pediu. Não cometa nenhum erro, por favor.

O homem a puxou pelo braço. Caminharam em silêncio. Ele conhecia um lugar perto dali. Um beco deserto e úmido, sem olhos e sem janelas. A moça tirou o lenço da cabeça e ele olhou. Estava totalmente calva, as pequenas veias azuis brilhavam na pele esticada do crânio. O homem sentiu pena e agiu com rapidez. Pegou o lenço do chão e o rasgou em pedacinhos. Foi andando de olhos no chão até a estação de metrô. No caminho, deu as luvas que usava a um mendigo maltrapilho que tremia de frio. O outono anunciava que o inverno seria insuportável este ano.

 




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17 de abril de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos calva, garganta, grito, negócio

               
              
            
                

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