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11 de agosto de 2017

Combustão

Gravação da última conversa entre Raquel C. e João M., registrada na caixa preta de seu relacionamento, encontrada entre os destroços ainda fumegantes de sua convivência:

Ar. É sobre isso que eu queria conversar. Preciso de um pouco de ar puro. Entenda. Um tempo separados, um tempo curto, para experimentar. Só uns dias, isso vai bastar. Não consigo respirar, entro em casa e tenho logo que abrir as janelas para arejar a sala, isso é terrível pra mim, parece que estou sufocando. (Ininteligível) Não gosta mais de mim? Eu fiz algo errado? Se eu fiz, me diga que eu… (Ininteligível) Não é que não goste, eu gosto… (Ininteligível) Então me diz e eu (Ruídos, palavras desconexas, gritos) Eu gosto, já falei que eu gosto, mas não da maneira que você quer ou precisa. E qual é a maneira que eu quero e preciso? Basta que você (Ininteligível) Só assim eu vou saber. Acho que nem você sabe que maneira é essa ou que maneira (Ininteligível) Mas se eu já lhe disse tantas vezes que (Ininteligível) Tá bom, se eu não disse pelo menos eu demonstrei. Ah, você demonstrou? De que jeito, pode-se saber? (Gritos, barulho semelhante a socos no painel do carro) Acho que você é cego, João. Mas você gosta de mim? Gosta mesmo de mim? Que você gosta do Pipoca eu sei, todo mundo gosta do Pipoca, é só ele abanar o rabo e já ganhou um fã, mas de mim? (Ininteligível) Apaixonada por mim, foi isso que eu perguntei. Que coisa foi esse barulho? Parece que o (Ininteligível) Acho que uma pane (Barulho) (Ininteligível) Não está funcionando o (Ininteligível) Pra mim isso não é amor, Raquel, não serve pra mim, eu preciso de (Ruídos) (Ininteligível) Dez anos, João, já faz dez anos que dizemos que na semana que vem nós (Soluços) (Ininteligível) Continua a mesma merda de sempre, jantar com os amigos, ver televisão, anda estressado, você anda sempre estressado, esse maldito trabalho que (Sons externos, gritos ao longe, ruído de nariz sendo assoado) E o amor, o que é o amor? Você sabe? Porque, segundo você, eu não sei, eu nunca soube (Barulho de celular tocando) Não posso falar agora, ligo depois (Ininteligível) Tempo que não transamos? Digo entre nós, porque aquela (Ininteligível) Não me engana, nunca me enganou, a Fátima, eu sei bem como ela age quando não estou por perto (Gritos) O Edu não tem nada a ver com isso, meu amigo de faculdade, pelo amor de Deus (Ruídos de motor, palavras desconexas) Pode deixar o Edu fora disso, mas a Fátima, ah, aquela descarada (Ininteligível) (Gritos, vozes abafadas, alguém chorando) Tem que sempre meter o Edu na discussão. Então tem outro cara na jogada, aquele Carlos, por exemplo (Gritos) (Ininteligível) Canalha, é o que você é, não tem argumento e fica citando nome de outras pessoas pra me ofender (Ininteligível) Se já chegamos a esse ponto, então (Ininteligível) Mas então para naquele posto e chama um mecânico (Ruídos) (Ininteligível) Agora você está falando claro. E eu pergunto: o que eu faço agora com a minha vida? Que porra eu faço agora com a porra da minha vida? (Gritos) (Ininteligível) Eu só pedi uns dias longe um do outro e você faz um escândalo desses (Ininteligível) É isso que você quer?Jogar fora uma vida inteira construída juntos? Eu não vou deixar, não vou permir (Ininteligível) E o que você vai fa… (Gritos. Barulho forte de freada. Estrondo. Explosão. Silêncio).

 




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  1. Parece que as coisas andam sozinhas, nao ha problema sem solucao…rs. E uma estrageia, pegue os problemas e os deixe na gaveta Uma hora eles se resolvem por causas naturais…rs

  2.     
                        
              
            
                

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