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16 de junho de 2016

Como no cinema

cinema2O frio da noite gela os ossos de Amadeu, mas ele parece não se importar com isso. Não nessa noite, pelo menos. De pé na frente do cinema, leu mais uma vez, com vagar, o cartaz que anunciava a demolição daquele edifício. Do seu edifício, hoje mais decadente que ele próprio e tão velho quanto. Aquele lugar tinha sido sua casa por mais de oitenta anos e não podia permitir que viesse abaixo sem se despedir. Triste, respirou fundo e entrou.

Percorreu os corredores escuros já conhecidos de memória, abriu a cortina que dava acesso à sala de projeção e avançou. O ruído estrondoso dos aplausos fez com que encolhesse os ombros, tão pesado era. Olhou em volta e reconheceu os amigos com quem convivera ao longo dos anos. Todos estavam ali por ele, e sorriam, e Amadeu lhes devolveu o sorriso, comovido. Não faltou ninguém: os elegantes Rhett Butler e Scarlet O’Hara o cumprimentaram com um aceno de cabeça; Don Corleone, sempre fiel a seus amigos, fez-lhe um gesto gentil com a mão; Norman Bates e sua adorada mãezinha apenas o olharam com discreta admiração; Gilda, a mais bela de todas, tirou as luvas antes de mandar-lhe um beijo com os dedos; o senhor Kane deu-lhe uma piscadela e apontou para Rosebud, encostado num canto da parede, como se dissesse Viu só onde estava o significado de tudo?; Ilsa Lund, vestida como se fosse viajar de avião pra muito longe, sussurrou You must remember this, a kiss is still a kiss…; a senhorita Poppins veio até ele levitando sobre as poltronas e o conduziu a seu lugar de honra, no centro da sala. As luzes se apagaram, a grande tela se iluminou e Don Lockwood apareceu dançando e cantando debaixo do maior toró que já houve naquela cidade.

Horas depois, quando as lembranças já não cabiam em sua memória e a saudade iria a qualquer momento fazer seu coração explodir, Amadeu deixou a sala, percorreu de volta os corrredores escuros e ganhou a rua. Foi devagar para casa, arrastando o peso quase centenário de seu corpo. No caminho um homem baixinho, vestindo um terno preto muito sujo e amarrotado, lhe ofereceu uma flor. Não disse nada. Apenas sorriu, coçou o bigodinho, virou as costas e saiu com seu andar desajeitado, fazendo piruetas no ar com a bengala. Amadeu aproximou a flor do nariz e aspirou. Fechou os olhos e compreendeu que a vida pode ser, sim, como no cinema: basta que se acredite nisso. E ele acreditava. Entrou em casa assoviando baixinho a canção Smile.

 




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