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15 de agosto de 2017

Como se fosse sexta-feira

Ela está distraída, ele, ausente. No mesmo vagão, todos os dias, como se todos os dias fossem sexta-feira. Ainda não sabem, ah!, porque ela está distraída e ele, ausente. Ignoram que, inclusive nas trincheiras em que se escondem, é possível voltar a se apaixonar.

E acontece. Porque os olhos dele mordem tudo ao redor, porque os lábios dela convidam ao beijo, e porque tudo tem que ser assim. E porque sim, ou porque quem sabe… E acontece. Talvez descubram cicatrizes semelhantes, os mesmos medos sobre os trilhos do metrô.

E acontece. Na baldeação se esbarram, os ombros se tocam, “me desculpe”, “não foi nada”, “eu estava distraída”, “eu também”, “é muita gente”, “sempre lotado”, “desce onde?”, “na Consolação”, “que coincidência, eu também”, “trabalha perto?”, “na esquina da Paulista”, “eu, na esquina da Augusta”, “bem pertinho mesmo”, “Ana”, “Marcos”.

Se é certo que isso existe mesmo, esse fenômeno que não se explica, amanhã acontecerá novamente com outros dois seres: um estará ausente, o outro, distraído. O mesmo vagão, como se fosse sexta-feira.

 




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