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24 de outubro de 2015

Como se não soubéssemos

criançasComo se não soubéssemos, eu e a aleijada…

Sempre o mesmo, nos domingos à tarde. Em fila, meninos de um lado, meninas do outro. Mais velhos atrás. Eu ficava atrás. Já era grande e tinha buço. A aleijada, sentada no saguão. Ninguém dava bola. Que acabe logo essa porra, eu pensava. Percebia que tinham chegado antes mesmo que a cara deles aparecesse no pátio: o perfume. O perfume vinha antes, anunciando a visita. E demorava a ir embora. Depois vinha o cheiro de sempre: comida enjoada, xixi nos lençóis, merda nos banheiros.

As gentes da cidade chegavam e iam logo olhando, pegando, passando a mão, cheirando, virando para ver de costas. Queriam certeza de mercadoria boa. Enganação, não. Se o domingo fosse de sorte, alguém catava as coisas que tinha, falava tchau e nunca mais dava as caras por aqui.

E aí o dia acabava. Quem ficava chorava um pouquinho, contando nos dedos quanto faltava para o próximo domingo. Eu não chorava, nem a aleijada. Como se não soubéssemos…

 




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