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28 de junho de 2017

Como sempre foi

Quando fecho os olhos, o mundo desaparece. Quando os abro, o mundo corre a se recompor no mesmo instante. Às vezes, durante o período infinitesimal dessa transição — e isso é apenas uma percepção — acredito surpreendê-lo ultimando sua tarefa de recomposição: percebo o contorno esfumaçado das coisas ao meu redor, alguns ruídos, uma chispa, o acomodar-se das distâncias, a luz do dia buscando lentamente sua intensidade, meus filhos demorando uns milésimos de segundo para adquirir suas formas habituais, o pelo do gato parece difuso e ele ainda não tem bigodes, a vizinhança descuidada e desagradável se estabelecendo à direita e à esquerda, um grito ao longe que ainda não chegou perto o suficiente para ser identificado, a nuvem que se atrasou em sua tarefa de encobrir o sol… Tudo isso acontece até o momento em que, olhos bem abertos, vejo tudo irromper de novo e se reintegrar velozmente à ordem, tudo recobrar sua textura, seu volume, seu nome e seu significado, e este mundo líquido e descartável voltar, mais uma vez, a ser como sempre foi: perpetuamente criado e inumano.

 




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