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11 de novembro de 2014

Considerações sobre o indefensável

torturanuncamais

Alguns acontecimentos podem ser explicados pela ciência física, com suas leis, seus paradigmas e suas proporcionalidades e, ainda e mesmo assim, não ultrapassam jamais o terreno do indefensável. O resultado de golpear inúmeras vezes um corpo feminino vulnerável de cinquenta e sete quilos contra uma parede de concreto é uma quantidade de hematomas e ossos quebrados inferior ao número de vezes em que essa mulher despertará chorando todas as manhãs, vítima dos pesadelos que a assustaram durante as noites em que ela milagrosamente conseguiu dormir.

Sete quilos pendurados e oscilando nos testículos de um homem adulto provocam uma dor diretamente proporcional à sensação de perda que seus filhos terão quando souberem pela mãe que ele foi preso e que não há certeza de sua volta. Nesse dia os meninos serão acometidos por uma crise de ansiedade e não irão ao colégio.

A cabeça de um jovem preso, submergida várias vezes num balde de água, desloca um volume de líquido idêntico ao medo que esse jovem sentirá, quando adulto, todas as vezes que tocar o telefone, mas será sempre infinitamente inferior ao pavor que ele experimentará quando ouvir os passos de um desconhecido vindo em sua direção.

Uma descarga elétrica de duzentos volts, aplicada a cada três minutos nos mamilos de uma jovem nua, produz um grau de desconfiança na humanidade milhões de vezes superior à crença que ela poderá depositar em qualquer declaração de direitos humanos.

Se tudo isso é possível de se saber e, às vezes, de se testemunhar, se tudo isso a física pode explicar com números, cálculos e matemática, pergunta-se que proporcionalidade de relações se deve estabelecer entre os seres para que a vida continue a ser um projeto viável? Qual a medida para se recuperar a fé nos homens?

 




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