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17 de setembro de 2014

Contos Mínimos # 121 a 130

incêndio121.

Graças à liberdade de expressão que temos hoje no país, é possível dizer que um governante é corrupto e inútil sem que nada aconteça com a gente. Nem com o governante.

122.

A mulher espera o marido à janela todos os dias, com a esperança de que hoje ele não volte.

123.

Ele tinha consciência de que não poderia viver assim por muito mais tempo. Decidiu inscrever-se no AA – Angustiados Anônimos.

124.

Um dia, farto de tudo, ele renunciou à vida das redes sociais, despediu-se dos amigos dizendo que queria ter experiências plenas de significado e se mandou para o Himalaia. Lá foi soterrado por uma avalanche de neve. No Facebook todos lamentaram o ocorrido, sentados em suas poltronas confortáveis e na segurança da vida digital.

125.

No restaurante, o casal em crise acabou de discutir a relação.

– E então, como se sente agora, querida? – perguntou ele.

– Assim que sairmos eu vou arrebentar a tua boca – disse ela, com um sorriso.

Ele riu sarcasticamente como se pensasse: “Essa minha mulher é mesmo bobinha”.

Na rua, antes mesmo que o manobrista trouxesse o carro, ela arrebentou a boca do marido com o punho fechado.

126.

Era uma mulher muito vaidosa. Tão vaidosa, que costumava demorar duas horas se arrumando para esperar a solidão.

127.

Computador, oh computador! Você tem memória, mas não tem recordações.

128.

Quando chegaram ao aeroporto, perceberam que estavam sem as passagens e os passaportes. Tiveram que voltar para casa. Encontraram os documentos na mesinha da sala, ao lado do bebê.

129.

– O que você quer de mim?, perguntou o escritor.

– Quero que me escreva, respondeu o personagem.

130.

Quando Yerma apareceu no teatro e anunciou que estava grávida, todos olharam de soslaio para o contrarregra, já que Juan, o marido, não estava nem aí.

 




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17 de setembro de 2014 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos Minímos contos, mínimos

              
            
  1. Mário, parabéns pelo blog. Que bom que sua obra de arte está condensada em um único endereço. Nós, seus fãs leitores, agradecemos. Os contos são um capítulo a parte de tudo isso, sempre perfeitos e comoventes. Só tenho que parabenizar e agradecer. Abraço carinhoso, Mayra

    • Mayra, você tem muito a ver com isso. Me incentivou e me deu o caminho das pedras. Eu é que tenho que agradecer. Apareça sempre por aqui. Abraço.

  2. Mário, seu talento agora pode ser visto mais amplamente neste formato contemporâneo, organizado: o “blog”. Privilégio nosso, que podemos ter a ótima literatura e a informação erudita, aqui. Parabéns e, sou especialmente fã dos “Contos Mínimos”.

  3.     
                        
              
            
                

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