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3 de outubro de 2014

Contos Mínimos # 131 a 140

otelo131.

Otelo está espumando de raiva. Ele acaba de descobrir que Shakespeare escreveu histórias em que o mocinho e a mocinha acabam juntos e felizes para sempre.

132.

Era uma mulher tão reprimida que sempre simulava os orgasmos. Fingia que não os tinha.

133.

Irresponsável e leviano, Chico Amoroso gastou à toa o tempo que tinha e ficou sem nada para chamar de seu. Então sua vida se transformou numa fotografia: as árvores não perdiam o verde das folhas, os rios eram feitos de água parada, os pássaros pareciam suspensos por invisíveis fios que desciam do alto, as flores não murchavam. Nada envelhecia, nem mesmo ele. E tudo, absolutamente tudo, pouco a pouco foi morrendo, imóvel, de tédio.

134

A princesa ficou muito decepcionada quando acordou. O príncipe era velho, tinha poucos dentes e cheirava a urina. Mas lendas são lendas, o que se há de fazer? Respirou fundo e mandou ver.

135.

Ela odiava tanto o ex-marido, e desejava tão fortemente se vingar por tudo o que ele fizera, que, quando ele a procurou para reatar o relacionamento, ela aceitou na hora.

136.

Prancheta na mão, o pesquisador aborda as pessoas na rua:

– Bom dia! Bom dia, senhor! Sim, o senhor mesmo. Estou realizando uma pesquisa sobre a falta de tempo na vida das pessoas e como isso afeta a nossa sociedade. O senhor já deve saber, há estudos que comprovam que a falta de tempo nesse mundo moderno provoca nos cidadãos reações como o estresse, ansiedade cada vez maior e vários desvios de comportamento, como atitudes agressivas, violentas e até homicidas. O senhor poderia me dar alguns minutinhos?

137.

Viviam abaixo da mais absoluta miséria. Um cão velho e abandonado lhes trazia a comida.

138.

Depois de muito meditar, cheguei à conclusão de que é uma grande idiotice pensar que possa existir tanta sabedoria em uma só frase. Bom, em duas já é outra coisa.

139.

– Almeida, o que está fazendo?

– Trabalhando, chefe, trabalhando.

– Você está lendo, isso sim. Chama isso de trabalhar?

– Estou cuidando de abrir minha cabeça, chefe.

– Eu não preciso que você abra a cabeça, Almeida, entendeu? Eu preciso que você produza.

– Chefe, estou buscando novas ideias, novas referências.

– Não me aporrinhe, Almeida! Ao trabalho, anda!

140.

Supõe-se que todo livro tenha, pelo menos, dois leitores: aquele que o escreve e aquele que verifica as provas da gráfica. Mas isso, é claro, não passa de uma suposição.

 




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