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15 de outubro de 2014

Contos Mínimos # 141 a 150

abstrata141.

“Para mim tanto faz, viver ou morrer”, disse o professor de Português quando um aluno lhe perguntou que verbo da segunda conjugação ele deveria estudar.

142.

Ela chegou à estação quando o trem estava fechando as portas. Ainda conseguiu vê-lo lá dentro do vagão e soube de imediato que aquele desconhecido era o homem de sua vida. Enquanto esperava o próximo trem, imaginou sair com ele, ir ao cinema de mãos dadas, jantar à luz de velas, dormir com ele… Perdeu o interesse na hora.

143.

Um conselho muito útil: quando alguém lhe der uma bofetada, ofereça sempre a outra face, porque, se lhe derem outra bofetada no mesmo lugar, vai doer mais.

144.

Nosso relacionamento era marcado pela dislexia. Queríamos fazer um 69 e acabamos nos beijando.

145.

– Eu nunca escrevi nada. Como faço para começar?, perguntou o aprendiz de escritor.

– Aprenda a ouvir primeiro, disse o escritor veterano.

– Ouvir o quê?, inquietou-se o aprendiz.

Nesse instante os dois escutaram gritos ferozes, aflitos e também vários golpes violentos na porta.

– Quem são?, quis saber o novato.

– Os personagens. Sempre que alguém pensa em escrever, eles aparecem. Ouça-os.

146.

– Olá, o senhor não é o famoso escritor Artêmio de Andrade? Que coisa! Eu ouvi dizer que o senhor tinha morrido, veja só!

– Não há dúvida, eu morri mesmo. E agora a senhora pode me ver também, pois algo muito parecido acaba de lhe acontecer.

147.

O casal de amiguinhos brinca na sala da casa quando, num movimento brusco, a blusinha da garota se rasga, revelando um pedaço de seu peito. Olham-se e sorriem. Percebem que, de agora em diante, suas brincadeiras serão bem diferentes.

148.

Cansado da noite de autógrafos, o escritor chega a seu apartamento louco para cair na cama. Tira o paletó e a gravata, jogando-os sobre a cama. Enquanto tira a camisa, olha para a gravata e pensa que se parece com uma cobra. “Vou usar essa metáfora em algum texto”, pensa, enquanto se senta na cama para tirar os sapatos. É nesse momento que a gravata salta e se enrosca em seu pescoço, matando-o.

149.

Todos os dias aquele senhor de cabelos brancos se senta no mesmo banco da praça e fica muitas horas falando sobre os seus dias de juventude. É tocante vê-lo rindo e gesticulando, certamente contando histórias engraçadas de seu passado. A seu lado, só o espaço vazio. Não há ninguém para ouvi-lo. Ou melhor, há: o banco.

150.

Quando nosso amor terminou e tudo se transformou em cinzas, pensei que nada mais poderia acontecer. Então chegou o vento.

 




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