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22 de outubro de 2014

Contos Mínimos # 151 a 160

coracao151.

Ela olhava o coração sobre a mesa da cozinha. Estava meio acinzentado depois de tantos dias no congelador mas, ainda assim, conservava sua aparência de coração. Com a faca elétrica cortou o órgão em várias tiras, todas de igual tamanho. Colocou cada uma na embalagem de pizza, vestiu o uniforme e saiu para fazer as entregas. Uma para cada amante que seu marido tivera quando estava vivo. Elas certamente mereciam um pedaço desse troço fedorento.

152.

Ele estava à beira da morte. Os médicos lhe deram poucos meses de vida. Prevenido, ele os guardou num cofre muito bem fechado. Aqueles poucos meses duraram quinze anos.

153.

Ela continuava nua, embora eu a tivesse coberto de beijos.

154.

Há pessoas que conseguem suportar a dor da morte de um ente querido, ou de dois entes queridos, até de três entes queridos. Mas perdem o controle e ficam desesperadas quando alguém lhes rouba o carro.

155.

Papai sempre me diz que eu sou a menina mais linda do mundo quando fico caladinha, e que as meninas boas, as boas mesmo, só devem falar quando alguém pergunta alguma coisa. É por isso que eu nunca conto a ninguém que, quando a mamãe sai, ele vem para o meu quarto e se deita ao meu lado aqui na cama, com a respiração muito forte, como se tivesse chegado de uma corrida.

156.

Nós nunca percebemos que, quando o trem chega a seu destino, estamos um pouquinho mais velhos dentro dele.

157.

Há muitas diferenças entre o céu e o inferno. Uma delas é que no céu se lê poesia, e no inferno alguém tenta explicá-la.

158.

Ela emprestou sua voz ao mudo só para escutá-lo dizer “eu te amo”. Mesmo que não fosse para ela.

159.

O escritor sussurra ao livro recém-publicado:

– Você é meu e de mais ninguém.

O livro responde:

– Sim, seu e de todos os leitores.

O escritor sorri:

– Pois foi como eu disse: meu e de mais ninguém.

160.

A miséria bateu à minha porta. Quando abri, ela deu uma olhada para dentro e voltou atrás. “Não me lembrava de que já tinha passado por aqui”, disse a desgraçada. E se mandou.

 




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