Close

5 de novembro de 2014

Contos Mínimos # 161 a 170

caim161.

– Mais que um irmão, você é meu amigo!

– Eu penso da mesma maneira, Abel.

162.

A mãe de Norman Bates gosta de se disfarçar de filho perturbado e cometer uns crimes por aí. Mas o que mais a diverte é se disfarçar de pessoa comum e ir ao cinema ver sua incrível atuação como a vítima no chuveiro, assassinada por ela mesma disfarçada de filho psicótico disfarçado de mãe, numa cena magistral dirigida por ela disfarçada de Alfred Hitchcock.

163.

O advogado abriu o testamento do avô e leu: “Não há herança!”. A família toda imediatamente parou de chorar.

164.

Ontem ele abandonou o lar. Mas não levou tudo o que era seu: deixou aquele nariz enorme e horroroso no rosto dos filhos.

165.

Comprei um balcão de bar só para mim. Estava farto de sair todas as noites para beber. Assim que chegou, montei-o num canto da sala e em seguida me pus do lado de fora e pedi uma cerveja. Passei para o outro lado e perguntei: “Com álcool ou sem álcool?”. Voltei para o lado de fora e respondi: “Claro que é com álcool, estúpido!”. Retornei para o lado de dentro: “Estúpido é você, seu imbecil!”. Novamente fui para o lado de fora e bati com o punho fechado sobre a superfície: “Ninguém me trata assim, ouviu bem? Vou para outro bar.”. E saí batendo a porta. O outro ficou lá atrás do balcão, com aquela cara de paquiderme.

166.

Eu fui mesmo um idiota quando me apaixonei pela lua. Frívola e volúvel, ela sai todas as noites e sabe Deus aonde vai.

167.

Deixamos o bebê com a vovó e fomos ao cinema. Na volta, encontramos o menino lavado, passado e dobrado dentro do armário do quarto.

168.

Agora ela pensa que é madame e só se alimenta com os ricaços. Antes isso não importava, e ela ia com todos: magros ou gordinhos, pobres ou ricos, negros ou de qualquer outra cor, altos ou baixinhos. Não havia distinção. Tudo mudou quando apareceu esse milionário, e ela pôs na cabeça que o saldo bancário do sujeito dava outro sabor. Tonta! Estúpida! Será que ela não percebe como estão difíceis esses tempos para nós, canibais?

169.

Foi muito triste quando meu pai, sem que eu pedisse, me deu a chave de casa. Eu já era quase um adulto e entendi que ele estava transferindo a autoridade, como se pedisse permissão para envelhecer.

170.

Se você quiser ficar bem longe do azar, não cruze com um gato preto, nunca abra um guarda-chuva dentro de casa, jamais brinde com água, não derrame sal no chão, nunca se levante com o pé esquerdo, não passe debaixo de uma escada, nunca quebre as correntes de felicidade que chegam por e-mail, jamais se sente a uma mesa com treze pessoas e não leia este conto mínimo. Ih, já leu! Que azar!




Tags:,

5 de novembro de 2014 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos Minímos contos, mínimos

               
              
            
                

Deixe um comentário