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10 de dezembro de 2014

Contos Mínimos # 191 a 200

lazaro191.

– Lázaro, levanta-te e anda!

E Lázaro se levantou e andou. Também, não custava nada, qualquer um teria se levantado e dado alguns passos, não é preciso muito esforço para fazer uma tarefa tão simples. Ademais, aquele barbudo era boa gente, empenhado e muito generoso. E o ex-morto, só pelo fato de ter readquirido vida, já tinha seu lugar garantido nas sagradas escrituras.

192.

Quando tudo acabou, ele percebeu que o difícil não era esquecer. O difícil era recordar sem que doesse.

193.

Não coloque em minha boca palavras que você nunca me ensinou a dizer, como amor, paixão, desejo, nós dois, felicidade. Quando muito, deposite em meus lábios a palavra ausência. Nessa matéria você é uma professora insuperável.

194.

Aquele tobogã era tão alto, mas tão alto, que cada criança que descia por ele chegava ao chão com dois anos a mais.

195.

Bom, eu não tive a menor culpa naquela história toda. Quando sugeri que eles comessem a fruta da árvore, estava pensando somente nisso: que eles saboreassem a fruta, nada mais. Não é responsabilidade minha se eles levaram a coisa para o campo metafórico e deixaram o dono do jardim puto da vida – declarou a serpente.

196.

Marlene, minha vizinha do 135, tem um transtorno mental. Todos os dias toca minha campainha e, quando abro a porta, ela pergunta por si mesma: “A Marlene está?”, e estica o pescoço para olhar dentro de minha sala. Nas primeiras vezes eu me limitei a dizer que aqui não havia nenhuma Marlene, mas, com o passar do tempo e minha paciência no limite, resolvi mudar de tática. “A Marlene morreu faz muito tempo. Um vizinho muito nervoso cortou a cabeça dela”. Desde então ela vem à minha porta, toca a campainha e pergunta como aconteceu o assassinato da Marlene. A cada vez que ela aparece eu conto um detalhe do seu futuro.

197.

O médico tirou os óculos e olhou firmemente para Deus:

– Senhor, pelo resultado de seus exames, posso concluir que sua saúde não anda boa. À imagem e semelhança dos homens, o senhor apresenta indícios de estresse, está obeso e hipertenso. De modo que minha recomendação é: uma boa dieta alimentar, menos preocupação e mais exercício físico, entendeu? Esqueça essa coisa de onipresença e caminhe sempre que puder, todos os dias.

Fez uma pausa. Fechou o prontuário de Deus e concluiu: “E, a partir de hoje, nada de sal”. A enfermeira que acompanhava a consulta, e que por acaso era esposa de Ló, suspirou, aliviada.

198.

Chapeuzinho Vermelho errou o caminho da casa da vovó e perdeu-se na floresta. Ficou dias indo e voltando a esmo, e nada de encontrar a trilha que ela percorreu tantas vezes. Desolada, sentou-se sob uma árvore, soluçando muito. Um anão a encontrou e a levou para sua cabana. Lá, junto com outros seis anões, ela finalmente pôde relaxar um pouco e ficar mais tranquila. A dona da casa, uma tal de Branca de Neve, não ficou muito confortável com a nova inquilina. Olhava-a com desconfiança e reservas, já que nunca acreditou nesse tipinho de garota recatada e virtuosa que pede licença até para soltar pum. “Sei não, mas essa zinha aí boa bisca não deve ser.”.

199.

– O que você mais deseja agora?

– Um beijo sob a chuva. E você?

– Que comece a chover agora.

200.

Responder “pelo menos você tem emprego” a quem se queixa do trabalho é o mesmo que dizer “pelo menos você tem marido” a uma mulher que apanha do companheiro.

 

 

 




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