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26 de dezembro de 2014

Contos Mínimos # 201 a 210

politico201.

Quando aquele político disse no palanque “Governarei para todo o povo!”, sua cara caiu de tanta vergonha de si mesmo. Seu fiel assessor, sempre muito solícito, tratou de pegá-la no chão e devolvê-la ao chefe, que, muito rapidamente, a recolocou sobre o rosto. Ajeitou o sorriso plastificado, pigarreou algumas vezes, arrumou o cabelo e a gravata e continuou o falatório para a audiência, que já estava sem voz de tanto gritar “Presidente! Presidente!”.

202.

Hoje, quando me levantei, não me dei ao trabalho de me vestir. Nem sequer lavei a tua ausência.

203.

A família está reunida no almoço de domingo:

– Papai, preciso confessar uma coisa: sou lésbica.

– O quê?!

– Eu também, papai.

– Ah, vocês querem me matar!? Então nesta casa ninguém gosta de homem?

– Eu gosto, papai.

– Eu te arrebento a cara, Alfredo!

204.

Isabel se lembra da primeira boneca que ganhou: era loira, de olhos azuis e muito sorridente. Chamava-se Zizi. Foi sua companheira durante toda a infância e era como se as duas crescessem juntas, amigas inseparáveis entre risadas e confidências. Quando completou 14 anos, Isabel experimentou a primeira grande perda de sua vida: seu irmão menor destruiu Zizi, rasgou seu vestidinho e arrancou sua cabeça e seus bracinhos, sem que ela nada pudesse fazer. Naquele dia Isabel odiou seu irmãozinho e fez um juramento para si mesma: “O meu irmão nunca terá nenhuma boneca em toda a sua vida”. Hoje, no velório de sua jovem cunhada, Isabel se recorda disso.

205.

Aquela era uma turma feliz: seis amigos sem segredos. Agora são cinco amigos e um segredo.

206.

– A gente já não dá mais certo juntos, Caetano. Vou embora de casa.

– Ei, espere aí, você não pode ir assim. Preciso que me avise com quinze dias de antecedência.

– Como?!

– Pra que eu possa encontrar uma substituta. É justo, não é?

– E durante esses quinze dias tenho que fingir que continuo sendo sua mulher? Você acha que isso é normal?

– E também preciso que me devolva pelo menos a metade do investimento que fiz em você.

207.

Tenho muita fome. Não me lembro da última vez em que comi algo. Abro a geladeira e constato: está mais vazia que meu estômago. Tenho mais sorte quando vasculho o armário da despensa: há um frasco de Passe Bem novinho. “Que se foda”, penso eu. E considero a possibilidade de terminar a noite mortinho da silva. Bem, pelo menos serei um cadáver diferente: cheiroso e sem rugas!

208.

“Acho que no final da tarde vai chover um pouco”, disse Noé olhando o céu, poucas horas antes de tudo começar.

209.

Já não tenho dúvida nenhuma: a inspiração para escrever está na higiene pessoal ou nas ruas. É por isso que, quando me dá um branco criativo, corro para debaixo do chuveiro. Quem sabe a água batendo na cabeça não me refresca as ideias? Ou então saio para caminhar a esmo pela cidade. Pode ser que encontre alguma ideia jogada por aí, na sarjeta, como se fosse uma carteira perdida.

210.

Joana era esquisita. Seus gestos nunca coincidiam com a circunstância, e isso afastou namorados e amigos. Bocejava quando apaixonada, aparecia uma vermelhidão no rosto quando estava cansada e sacudia as costas quando estava alegre. Se tivesse frio, mostrava a língua, diminuía a voz para gritar e encolhia os ombros quando estava furiosa. Essa característica lhe trouxe muitos aborrecimentos e os médicos sempre se equivocavam no diagnóstico. As amigas a evitavam e os homens se aproximavam apenas para entender o que acontecia com ela, e logo se afastavam. Ninguém era capaz de decifrá-la e por isso Joana vivia infeliz. Mas ria sem parar.

 

 




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