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11 de fevereiro de 2015

Contos Mínimos # 231 a 240

acougue231.

Se, na frente de um açougue, você passar a língua pelo lábio superior ante a visão de uma costela de boi; se você sentir que sua pressão quase vai a zero ao ver uma peça de picanha; se você suar frio e quase desfalecer quando avistar um pedaço vermelho de alcatra; se você sentir que vai começar a delirar na frente daquele pedaço generoso de maminha, não se preocupe: isso não é morbidez e acontece com todo mundo durante a Semana Santa.

232.

Em toda família que se preze há, no mínimo, uma ovelha negra. Bem, eu sou filho único.

233.

Em seu leito de morte ele descobriu um prazer surpreendente: a delícia de fechar os olhos e sentir o fim chegando. Devagarinho.

234.

Ele escovava bem os dentes e fazia com diligência todas as tarefas que lhe pediam os pais. Passou pelos ensinos fundamental e médio com elogios dos professores. Era muito bom em Matemática. Entrou na faculdade e saiu de lá com honra ao mérito. Conseguiu um bom trabalho. Jamais se queixou de nada. Comprou uma casa num bairro tranquilo. Casou-se com a namorada do colégio. Teve um filho e colocou-o numa boa escola. Seu filho escova bem os dentes…

235.

– Socorro, gritou a mulher que se afogava.

– Ajuda!, gritou novamente ela.

– Auxílio!

Os que iam resgatá-la deixaram de correr: não devia ser tão urgente assim, já que ela tinha tempo de pensar em sinônimos.

236.

A felicidade é uma coisa terrível! Quando encontramos a nossa, é possível que estejamos roubando a de outra pessoa.

237.

Eu fico em pânico toda vez que ouço um político falando com calma e serenidade. Passo a ter certeza de que algo vai mal, muito mal!

238.

Pobrezinha! Quando soube que ela nunca tinha ido a um circo, levei-a ontem para ver o espetáculo. Voltei para casa sozinho, porque o dono do picadeiro me pagou um bom dinheiro por ela.

239.

Recebi há alguns dias a mensagem de uma moça dizendo assim: “Gosto muito de seus contos. Gosto de tudo o que você escreve. Seus personagens são muito humanos e cheios de bons sentimentos. Para quem lê, parecem velhos conhecidos, tão reais eles são. Você é um homem bom?”. Ainda não respondi à mensagem.

240.

Maria Eduarda de Garcia tem treze anos e está grávida de José Clóvis de Garcia que, por coincidência, é seu próprio pai. Os dois estão radiantes com a notícia. Ele, pela chegada do primeiro netinho; ela, porque agora terá uma boneca de carne e osso, que mexe sozinha os olhinhos, as perninhas e os bracinhos.

 




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