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24 de fevereiro de 2015

Contos Mínimos # 241 a 250

sangue241.

– Um litro e meio, senhor. Vai pagar em espécie?, perguntou a mocinha do caixa do supermercado. O homem assentiu com a cabeça e arregaçou a manga da camisa. Aguardou que ela extraísse a quantidade exata. Minutos depois ele saiu, carregando as sacolas de compras.

242.

O homem chega à agência de publicidade e pede:

– Bom dia. Por favor, quero fazer uma campanha de marketing para conquistar a minha vizinha.

– ?

– Acontece que ela me ignora completamente. Mesmo que nos encontremos no elevador do prédio, ela finge não me ver. Não me olha nem me dirige a palavra. Quero fazer uma campanha para que ela consuma meu produto, isto é, o meu amor por ela. Poderíamos começar com uma frase de efeito, o que acha? “A felicidade que você procura pode estar perto de você, no 13º andar, apartamento 131”, que tal? Ou seria melhor algo mais sutil?

243.

Prestes a atravessar a rua, um carro passa por mim no farol. A mãe ao volante está visivelmente aflita. No assento de trás, a avó, com a criança inerte nos braços, olha para mim com os olhos tristes. Está tranquila. Somente ela e eu sabemos que não dá mais tempo.

244.

Nasceram um para o outro. Viveram um contra o outro. Hoje repousam em tumbas ligeiramente separadas.

245.

A Bela Adormecida despertou com o beijo de amor que recebeu do príncipe. Ele quase se arrependeu, porque desde então tem que ficar acordado ouvindo-a narrar os sonhos que teve nas 1001 noites em que passou dormindo.

246.

Seríamos treze discípulos, mas no último minuto o Mestre apontou para mim e ordenou que eu pintasse o quadro da última ceia.

247.

Comer, passear, conversar, dormir… Ah, sim, essas coisas que fazíamos juntos. Agora me lembro. Bom, mas isso eu consigo fazer sozinho agora.

248.

O velhinho chorou quando viu pela televisão a ovação que seu filho recebeu. Ah, como estava lindo em cima daquele caminhão, com a capa vermelha e a coroa na cabeça! Ficou orgulhoso: desde seus tempos de mocidade os Gama e Silva sempre mereceram destaque no desfile de cavalos que anualmente acontecia na cidade. O rei da festa era sempre um Gama e Silva, e este ano não foi diferente.

Sua esposa o olhava com compaixão e dava graças aos céus pela catarata que empanava a visão de seu marido. Por sorte ele não pôde ver que o filho estava fantasiado de Rainha de Sabá e ia em destaque num carro alegórico da Parada do Orgulho Gay.

249.

Madrugada.

– Ai, estou morrendo! Chama a Luísa.

– Isso lá é hora de chamar alguém? Morra pela manhã – disse a mulher.

Amanhece.

– Alô, Luísa?

– Sim, mamãe, sou eu.

– Luísa, filha… seu pai… ele…

250.

– Não, não e não. Exijo um exame de DNA. Esse filho não é meu. Além disso, você sempre me falou que se cuidava, a tabelinha etc.

– Ah, os homens, como são descarados! Nunca querem assumir a responsabilidade. Pois fique você sabendo que isso não vai ficar assim, ou eu não me chamo Eva. Adão, vá para o inferno!

 

 




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