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10 de março de 2015

Contos Mínimos # 251 a 260

parindo251.

Às cinco da madrugada começou o ritual: minha mãe gritava como se estivesse possuída, meu pai permanecia em silêncio e com a cara aflita, eu estava molhado e com muito, muito medo. As outras pessoas da sala tentavam ajudar para que nosso primeiro encontro fosse uma festa. Foi assim que eu nasci.

252.

Madrugada. Na poltrona da sala, Artur lê “1984”. Seu pai tinha recomendado o livro antes de morrer: “Leia e sonhe com um mundo feliz”.

253.

– Você primeiro – disse a galinha.

– De forma alguma. Primeiro as damas – disse o ovo.

254.

Dormir, ultimamente, tem sido para tarefa quase impossível para mim. Assim que coloco a cabeça no travesseiro, começo a pensar na minha morte e, quando vejo, o dia já clareou e eu não preguei os olhos. “Não quero que a morte me surpreenda dormindo. Quero saber realmente como ela vai chegar.”.

255.

– O livro mais vendido do momento é “A História da Estupidez Humana”.

– Você sabe do que se trata?

256.

– Nós ficamos casados durante oito anos, de 1978 a 1974 – disse a atriz, modelo e dançarina, com um sorriso encantador.

257.

– Papai, papai, tem um homem debaixo da minha cama!

– Fique tranquilo, filhinho, foi só um pesadelo. Lembre-se do que eu disse: os homens não existem.

E o pequeno monstrinho voltou a dormir.

258.

– Se o planeta sofresse um ataque nuclear, e quase não restasse viv’alma, que casal você escolheria para repovoar a Terra?

– O Papa e a Madre Tereza de Calcutá.

259.

1952 foi um ano terrível para o planeta. Não tivemos um só dia de chuva. Talvez por isso íamos tanto ao cinema, para ver um pouco de chuva, ainda que só na tela. Uma noite, a falta de chuva atingiu também a sétima arte e assistimos, constrangidos, a um Gene Kelly sem graça, de guarda-chuva na mão, tentando improvisar uma dança e uma música nas ruas secas.

260.

Na cutelaria do mercado central perguntei quanto custava a tesoura para cortar angústias. “Quatro horas de desespero e três dias de solidão intensa” – disse o atendente. “Hum… muito caro. Vou continuar com a angústia mesmo” – respondi.

 

 




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